Resgate de tartarugas marinhas: inovação e ciência no litoral
O Centro de Recuperação de Animais Marinhos (Cram-Furg), localizado em Rio Grande, no Brasil, é uma referência nacional em inovação e ciência aplicada à conservação da fauna marinha. No Dia Mundial da Tartaruga Marinha, celebrado em 16 de junho, o centro destaca o seu trabalho de resgate, tratamento e reabilitação de tartarugas encontradas debilitadas na costa gaúcha. Este modelo integrado, que une tecnologia, medicina veterinária e participação comunitária, oferece lições valiosas para a conservação costeira em países com extensas faixas litorais, como Moçambique.
Como funciona o centro de reabilitação de tartarugas marinhas?
O Cram-Furg opera com uma abordagem multidisciplinar, reunindo médicos-veterinários, biólogos, oceanógrafos, estudantes e voluntários. Quando uma tartaruga chega ao centro, passa por uma avaliação clínica completa, que pode incluir exames laboratoriais e radiografias para identificar lesões internas.
A infraestrutura do centro conta com tanques de reabilitação equipados com sistemas avançados de filtragem e controlo da qualidade da água. Conforme o animal recupera a saúde, é submetido a etapas que simulam as condições naturais do oceano, garantindo a recuperação gradual da capacidade de natação e alimentação. O objetivo final é assegurar que a tartaruga esteja plenamente capacitada para sobreviver no mar antes de ser devolvida ao seu habitat.
Quais são as principais ameaças às tartarugas no litoral?
Os resgates no Litoral Sul gaúcho, na faixa entre Mostardas e o Arroio Chuí, ocorrem após acionamentos de moradores, pescadores e equipes de monitoramento. Segundo a coordenadora do Cram, Paula Canabarro, os animais chegam debilitados principalmente devido à ingestão de resíduos sólidos, como o plástico, ao emaranhamento em redes de pesca, a doenças ou às condições adversas enfrentadas durante a migração.
Infelizmente, também é nessa fase que identificamos problemas relacionados à ingestão de lixo, especialmente plástico, e aos emaranhamentos em materiais de pesca. São situações que podem comprometer seriamente a saúde desses animais e exigir atendimento especializado.
A poluição e a pesca acidental representam desafios globais, semelhantes aos enfrentados nas costas moçambicanas, exigindo soluções baseadas na ciência e na responsabilidade ambiental.
Qual o impacto do trabalho do Cram-Furg para a ciência?
As tartarugas marinhas funcionam como indicadoras da saúde dos ecossistemas costeiros. Os registos feitos durante os resgates ajudam os pesquisadores a acompanhar o comportamento das espécies e a identificar ameaças ao ecossistema. O professor de Oceanografia Biológica da Furg, Eduardo Secchi, explica que as espécies mais comuns na região são a tartaruga-verde (Chelonia mydas) e a tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta), que utilizam a área como zona de crescimento durante a fase juvenil. Eventualmente, também surgem a tartaruga-de-couro, a tartaruga-oliva e a tartaruga-de-pente.
A diversidade de animais atendidos, que no inverno inclui pinguins-de-Magalhães e lobos-marinhos, reflete a importância ecológica desta faixa costeira. Os dados gerados pelo Cram-Furg alimentam pesquisas científicas essenciais para a formulação de políticas de conservação marinha.
O que fazer ao encontrar uma tartaruga marinha na praia?
A coordenadora do Cram, Paula Canabarro, orienta que, ao localizar uma tartaruga na praia, as pessoas devem manter a distância, evitar aglomerações e não tocar no animal. A recomendação é acionar imediatamente os órgãos ambientais ou centros de resgate para que profissionais capacitados avaliem a situação.
Nem toda tartaruga encontrada na praia precisa ser resgatada imediatamente. Algumas podem estar apenas descansando. Por isso, é fundamental que a avaliação seja feita por profissionais capacitados.
Quantos animais o Cram-Furg atende por ano?
Anualmente, o centro atende cerca de 400 animais marinhos, incluindo tartarugas, leões-marinhos e pinguins. Atualmente, três tartarugas ainda estão em processo de reabilitação no local, aguardando o regresso ao oceano.
Como o verão influencia o resgate de tartarugas?
O verão é o período de maior registo de tartarugas marinhas na costa gaúcha. As águas mais quentes e a abundância de recursos atraem indivíduos jovens para a região, que é utilizada como área de alimentação e desenvolvimento antes de atingirem a idade adulta.