Novo urbanismo: como viver perto de tudo que precisa redefine o mercado imobiliário
O mercado de loteamentos no Brasil está a passar por uma transformação profunda. Se antes os projetos eram simples extensões da malha urbana, hoje apostam num modelo multifuncional que integra lazer, serviços, segurança e infraestrutura. Dados do Secovi-SP revelam que foram contabilizados 7.297 novos lotes no primeiro trimestre de 2026, com perfis que vão desde o programa Minha Casa, Minha Vida até a retomada de bairros planejados de alto padrão.
Esta mudança reflete uma nova procura dos compradores, muitos dos quais passaram a usar empreendimentos de lazer como moradia principal, impulsionados pelo trabalho remoto e pela busca por mais espaço e contacto com a natureza. O conceito de 'cidade de 15 minutos', idealizado pelo urbanista Carlos Moreno, está no centro desta revolução, prometendo acesso a serviços essenciais a pé em apenas um quarto de hora.
O que é o conceito de cidade de 15 minutos?
O urbanista franco-colombiano Carlos Moreno defende que as cidades se tornaram lugares de grandes distâncias, onde o automóvel domina o espaço público. 'Nos tornamos homens e mulheres centauros, metade humanos e metade carros, e perdemos a noção do tempo útil da vida familiar', afirmou. A proposta é romper com as longas distâncias e garantir que, em todo lugar, haja acesso a comércio, cultura, educação, cuidados médicos e espaços públicos de qualidade.
Como os parques e áreas verdes valorizam os loteamentos?
Segundo o professor João Fernando Pires Meyer, a presença de parques e áreas verdes tornou-se a característica mais importante e uma exigência prática do mercado para os novos loteamentos. Além do ganho ambiental, estas soluções são economicamente estratégicas e estão a ser adotadas até em empreendimentos do segmento económico. 'São espaços capazes de fazer com que os moradores criem uma ligação, desenvolvendo uma identidade que os faz sentirem-se pertencentes a um grupo ou comunidade', explica.
Qual o impacto do Minha Casa, Minha Vida nos novos loteamentos?
O programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) continua a ser um motor do mercado. Em fevereiro de 2026, 73% das unidades vendidas e 82% dos lançamentos na capital paulista estavam enquadrados no programa. A faixa 4, incorporada em 2025 para famílias com renda até R$ 13 mil, é financiada com recursos do Fundo Social do pré-sal. Segundo Caio Calfat, o conceito urbanístico para o público de menor renda segue a mesma lógica dos empreendimentos de alto padrão, oferecendo bairros planejados com infraestrutura completa.
Como os shoppings estão a transformar-se em polos de moradia?
A Allos, uma das maiores empresas do setor, aposta no desenvolvimento de empreendimentos de uso misto no entorno dos seus centros comerciais. O pipeline atual inclui 72 torres distribuídas em 13 shoppings de nove estados. O modelo 'asset light' permite à empresa monetizar terrenos próprios através de parcerias com incorporadoras. Dados da Allos mostram que moradores destes empreendimentos frequentam os centros de compras até cinco vezes mais do que a média dos consumidores.
O Fórum Estadão Loteamento Urbano 2026, que ocorre a 3 de agosto em São Paulo, debaterá estas tendências. O evento será transmitido online.