Oposição no Brasil encontra agenda comum contra Lula
Na primeira rodada de sabatinas com candidatos à Presidência do Brasil, promovida pelo Correio Braziliense, ficou claro que, apesar das diferenças ideológicas, há uma agenda comum de oposição ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Hertz Dias (PSTU), Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD) e Leonardo Avalanche (PRTB) criticaram, por caminhos distintos, a condução da economia, o funcionamento das instituições, a política externa e a capacidade do Estado de enfrentar os problemas da população.
Essa convergência pode dificultar a reeleição de Lula, porque amplia o discurso oposicionista para além de seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL). No primeiro turno, essas candidaturas retiram votos do filho de Jair Bolsonaro, mas ninguém sabe qual será o destino desses eleitores num eventual segundo turno.
Quem são os candidatos e o que propõem?
As sabatinas, conduzidas por jornalistas do Correio Braziliense, expuseram a diversidade da disputa. As perguntas sobre orçamento, governabilidade, segurança, relações internacionais e funcionamento dos Poderes revelaram projetos dirigidos a públicos distintos, mas convergentes ao culpar o governo pelos problemas nacionais.
Hertz Dias: a esquerda radical
A contestação mais radical partiu de Hertz Dias. Professor, rapper e ativista, o candidato do PSTU defendeu a revogação do arcabouço fiscal e das reformas da Previdência, trabalhista e tributária, além da suspensão do pagamento da dívida pública. 'Não existe deficit da Previdência. Nós vamos revogar as reformas da Previdência, suspender o pagamento da dívida pública e revogar o arcabouço fiscal', afirmou. À esquerda do PT, Hertz adotou a narrativa dos pobres contra os ricos: 'Os bilionários estão intocados neste país.'
Augusto Cury: a moderação com reformas
O escritor e psiquiatra Augusto Cury procurou construir uma imagem moderada, mas apresentou propostas de grande impacto institucional. A principal foi estabelecer mandatos de oito anos para os ministros do Supremo Tribunal Federal: 'O STF deveria passar por uma reforma no sentido de que eles deveriam ficar oito anos e depois ir embora.' Cury também propôs retirar do presidente da República o protagonismo na escolha dos ministros, com participação de magistrados, Ministério Público e Ordem dos Advogados do Brasil.
Ronaldo Caiado: a centro-direita administrativa
Ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado é o mais competitivo dos quatro sabatinados. O candidato do PSD criticou medidas que considera populistas, advertiu para seus efeitos sobre o Orçamento de 2027 e associou responsabilidade fiscal à capacidade de prestação de serviços. Na política externa, procurou diferenciar-se do governo e do bolsonarismo. Ao comentar as trocas de ataques entre Lula, Donald Trump e aliados de Bolsonaro, Caiado afirmou que a disputa se transformou numa 'briga de rua'. Condenou a interferência estrangeira na eleição, inclusive a participação do presidente argentino, Javier Milei, na campanha de Flávio Bolsonaro, mas também responsabilizou Lula pela escalada: 'Eles brigam pelo mesmo interesse: não discutir os assuntos do Brasil.'
Leonardo Avalanche: o populismo
Leonardo Avalanche representa a vertente mais populista. O candidato do PRTB defendeu distribuir celulares a jovens e empreendedores que concluíssem cursos públicos. Alegou que R$ 3 bilhões do orçamento de publicidade permitiriam comprar 'quase 500 milhões de aparelhos'. A conta não se sustenta.
O que esperar da oposição?
A rodada revelou uma oposição fragmentada, porém extensa. Hertz disputa a esquerda crítica ao governo; Cury procura os moderados; Caiado busca consolidar uma centro-direita administrativa; e Avalanche no populismo mais rudimentar. Apesar dos limites de cada candidatura, todas disseminam a avaliação de que o governo não responde adequadamente aos problemas do país.
Para Moçambique, que observa de perto a evolução política brasileira, esta diversidade de candidaturas mostra que a democracia brasileira continua vibrante, com espaço para diferentes visões. A capacidade de construir consensos e de responder às necessidades da população será o grande teste para todos os candidatos.