Manguezais: o ativo natural que pode salvar a economia costeira de Moçambique
Durante muito tempo, os manguezais foram vistos apenas como áreas de preservação ambiental. Mas num planeta cada vez mais quente e sujeito a eventos climáticos extremos, essa visão tornou-se insuficiente. Em Moçambique, onde a costa se estende por mais de 2.700 quilómetros, estes ecossistemas representam hoje uma infraestrutura natural capaz de reduzir riscos, proteger ativos económicos e impulsionar o desenvolvimento resiliente.
Poucas infraestruturas naturais oferecem tantos benefícios ao mesmo tempo. Os manguezais amortecem os impactos de tempestades e da erosão costeira, ajudam a proteger cidades e empreendimentos, sustentam a pesca artesanal e industrial, melhoram a qualidade da água e armazenam grandes quantidades de carbono. Em Moçambique, onde ciclones como o Idai e o Kenneth causaram estragos devastadores, o valor destes ecossistemas torna-se ainda mais evidente.
O valor económico dos manguezais
Esses serviços ecossistémicos geram valor económico ao reduzir riscos para infraestruturas, cadeias produtivas e comunidades costeiras. Estudos globais mostram que cada hectare de manguezal pode evitar prejuízos que frequentemente superam os investimentos necessários para a sua conservação e restauração. Em Moçambique, onde a economia azul é uma prioridade nacional, proteger os manguezais é também proteger o turismo, a pesca e a segurança alimentar de milhões de pessoas.
Manguezais como ativo estratégico para o clima
Moçambique concentra uma das maiores extensões contínuas de manguezais de África, um património natural que representa uma vantagem estratégica diante dos desafios da economia de baixo carbono. No entanto, a expansão urbana desordenada, a poluição e a conversão destas áreas para outras atividades continuam a comprometer um dos ativos naturais mais valiosos do país.
Cada hectare degradado significa menos proteção para o litoral, menor produtividade pesqueira e uma redução da capacidade natural de capturar e armazenar carbono. Esta capacidade transforma os manguezais num dos ativos naturais mais promissores para o mercado de carbono, um setor em que Moçambique pode posicionar-se como líder regional.
Finanças climáticas e inovação para ganhar escala
O grande desafio é transformar este potencial em escala. Restaurar manguezais ainda exige operações complexas, conduzidas em áreas de difícil acesso, que demandam monitoramento contínuo, mensuração do carbono e validação dos resultados. Esses fatores elevam custos, aumentam riscos e limitam a competitividade de muitos projetos.
É aqui que as finanças climáticas ganham protagonismo. Instrumentos como o blended finance, que combinam capital público, filantrópico e privado para reduzir riscos e alavancar investimentos, podem acelerar a restauração em escala. Em Moçambique, parcerias com organizações internacionais e fundos de inovação podem tornar a restauração de manguezais mais eficiente e atrativa para investidores.
Decisão ambiental ou escolha económica?
À medida que os efeitos das mudanças climáticas se intensificam, restaurar manguezais deixa de ser apenas uma pauta ambiental para se consolidar como uma estratégia de adaptação, competitividade e desenvolvimento económico. Para Moçambique, que enfrenta ciclones cada vez mais intensos e uma economia costeira vulnerável, o investimento nestes ecossistemas é uma questão de sobrevivência e prosperidade.
Transformar este potencial em realidade dependerá da capacidade de integrar ciência, tecnologia, instrumentos financeiros e políticas públicas. No fim, a questão talvez não seja mais quanto custa restaurar um manguezal, mas quanto custará a Moçambique deixar de investir numa das infraestruturas naturais mais eficientes para enfrentar as mudanças climáticas. Num planeta mais quente, proteger e restaurar manguezais não será apenas uma decisão ambiental, mas uma escolha económica inteligente.
Adaptado de artigo original de Geraldo Rios e Bianca Sales, publicado na Exame.