Sindicato do ABC propõe acordos trabalhistas mais longos para impulsionar inovação e emprego
O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wellington Damasceno, defende uma mudança na legislação trabalhista para permitir acordos coletivos com prazos superiores aos atuais dois anos. A ideia é fortalecer a negociação entre sindicatos e empresas, garantindo mais previsibilidade para investimentos e segurança no emprego. O principal exemplo é o acordo de cinco anos fechado entre quatro sindicatos e a Volkswagen, válido de 2023 a 2028.
Por que acordos mais longos são importantes para a economia?
Para Damasceno, acordos de curta duração dificultam o planejamento de investimentos industriais e a adoção de novas tecnologias. No caso da Volkswagen, o acordo vai além de salários e benefícios. Ele prevê investimentos em novas linhas de produção no ABC, em São Carlos e no Paraná, além de requalificação dos trabalhadores e estimativas de manutenção do emprego. “Eu acredito que a lei poderia ser flexibilizada para acolher as possibilidades de acordos mais longos quando forem possíveis”, disse o sindicalista.
O que dizem os especialistas e representantes das empresas?
Lucas Brun, gerente executivo de relações trabalhistas da Volkswagen, destacou que a cultura de negociação da montadora, herdada da matriz na Alemanha, contribui para relações mais estáveis. Ele explicou que acordos mais longos beneficiam ambos os lados: a empresa consegue prever investimentos e os trabalhadores podem assumir compromissos financeiros de longo prazo, como a compra da casa própria. “A base sempre será o diálogo, com compromisso e confiança mútua”, afirmou.
Como a Justiça do Trabalho vê essa proposta?
O ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Maurício Godinho, disse que as negociações coletivas se consolidaram após a Constituição de 1988. Ele apresentou dados mostrando que, em 2025, foram firmadas mais de 15 mil negociações coletivas no Brasil. Godinho criticou a reforma trabalhista de 2017, que, para ele, enfraqueceu os sindicatos, mas defendeu a possibilidade de ampliar o prazo dos acordos para até quatro ou cinco anos, desde que haja cautela, especialmente para sindicatos menores.
Já o presidente do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (TRT-2), Valdir Florindo, defendeu a negociação coletiva como forma de reduzir a judicialização. Ele lembrou que as mudanças provocadas por automação, inteligência artificial e transição energética exigem negociações permanentes sobre temas como organização da produção e qualificação profissional. “A tecnologia costuma chegar às fábricas antes de chegar às leis e aos tribunais”, afirmou.
Quais os desafios para o futuro das negociações coletivas?
Damasceno apontou dois grandes desafios: tornar conhecidas as experiências bem-sucedidas de negociação e adaptar os sindicatos às mudanças no mundo do trabalho e à polarização da sociedade. “A polarização prejudica o pensamento de boas ideias, porque elas deixam de ser avaliadas pelo impacto que produzem e passam a ser julgadas apenas por serem contra ou a favor do que eu penso”, disse. Apesar disso, o sindicalista afirmou que o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC pretende continuar sendo referência e fazer história novamente.