Moçambique precisa de cerca de 50 mil cirurgias cardíacas por ano, mas a capacidade de resposta do país continua muito abaixo das necessidades, estimou nesta sexta-feira, 6 de novembro, o cirurgião português Manuel Antunes, que chefia a 24.ª missão consecutiva de uma equipa de Coimbra ao Instituto do Coração (ICOR), em Maputo. A missão, que decorre até 11 de novembro, realiza operações gratuitas e dá continuidade a uma cooperação que começou em 2001 e já formou cirurgiões moçambicanos autónomos.
Segundo a informação avançada pela SAPO, a equipa portuguesa avaliou 16 doentes previamente selecionados pelos cardiologistas do instituto. Os casos incluem crianças e adultos com lesões nas válvulas cardíacas, sobretudo associadas à doença reumática, além de uma paciente com doença coronária grave na sequência de um enfarte agudo do miocárdio. Nos primeiros dias da missão já foram realizadas quatro intervenções, em duas mulheres, um homem e uma criança de 13 anos.
Uma gota de água no oceano
Manuel Antunes, professor catedrático jubilado e atualmente convidado da Universidade de Coimbra, não escondeu a dimensão do desafio. Um país com mais de 35 milhões de habitantes necessita de 50 mil cirurgias cardíacas por ano, disse, e o que se faz atualmente é apenas uma gota de água no oceano.
Os números locais mostram, ainda assim, um caminho de progresso. Os três cirurgiões moçambicanos formados no âmbito da cooperação operam de forma autónoma desde 2010 e realizam cerca de 200 cirurgias por ano, segundo o também relatado pela Notícias ao Minuto.
«Eles já estão a fazer mais do que nós, mas também estão cá durante todo o ano. E isso é importante», afirmou Antunes, citado pela SAPO. As quatro missões internacionais anuais somam cerca de 50 intervenções, o que confirma que a capacidade nacional já supera a contribuição externa.
Cirurgia em Maputo custa um terço do preço de Coimbra
Um dos argumentos mais fortes para reforçar o ICOR é económico. Uma cirurgia cardíaca em Coimbra custa entre 12 mil e 15 mil euros, enquanto no instituto moçambicano o valor se situa entre cinco mil e seis mil euros, considerando também o material transportado pela equipa portuguesa.
Tratar em Maputo evita ainda deslocações dispendiosas para o estrangeiro, um obstáculo que pesa sobretudo sobre famílias com poucos recursos. O ICOR, fundado em 2001 como associação moçambicana sem fins lucrativos, mantém um programa de ação humanitária que oferece tratamento gratuito a doentes com recursos económicos limitados, com atenção especial às crianças.
Do total de 16 doentes avaliados nesta missão, 12 foram encaminhados pelo Hospital Central de Maputo (HCM), o maior do país, e cerca de metade tem menos de 20 anos, adiantou Antunes.
Porque é que as crianças são as mais afetadas?
A doença reumática é o principal motivo detrás da procura de cirurgia pediátrica. A patologia, comum em vários países africanos, provoca lesões nas válvulas cardíacas durante a infância, com consequências que persistem frequentemente até à idade adulta.
«Temos aí duas ou três crianças com menos de 12 anos que normalmente são afetadas nas válvulas cardíacas pela doença reumática, que é mais ou menos endémica nestes países. Em Moçambique há muitas. Algumas dessas válvulas ficam completamente destruídas por esta doença», explicou o cirurgião, cuja especialidade inclui a reparação da válvula mitral e a substituição das que já não podem ser recuperadas.
O problema ultrapassa as fronteiras moçambicanas. Em Pemba, província de Cabo Delgado, foram recentemente rastreadas sete crianças com problemas cardíacos, uma das quais será encaminhada para tratamento especializado em Maputo, segundo o Jornal Notícias.
O que falta para escalar a cirurgia cardíaca?
Antunes apontou a dimensão das unidades de saúde e a disponibilidade de equipas especializadas como os principais obstáculos à expansão da cirurgia cardíaca em Moçambique. O ICOR, enquanto instituição privada, não consegue responder sozinho à procura existente, defendeu, e o HCM também realiza algumas intervenções, embora de forma pouco frequente.
O especialista considerou que o equipamento do instituto tem qualidade comparável ao do serviço onde trabalhou em Coimbra. O desafio principal não é tecnológico, é de escala: operar mais, formar mais profissionais e envolver mais unidades hospitalares.
A cooperação luso-moçambicana, interrompida apenas nos dois anos da pandemia de covid-19, evoluiu gradualmente para um modelo centrado no acompanhamento e no aperfeiçoamento técnico dos profissionais nacionais. Ao longo de 25 anos, o ICOR conjugou cuidados de saúde diferenciados, formação de profissionais moçambicanos e parcerias nacionais e internacionais.
O próximo passo é claro: transformar uma capacidade já comprovada num sistema de resposta à altura das 50 mil cirurgias anuais que o país precisa.
Perguntas frequentes
Quantas cirurgias cardíacas Moçambique precisa por ano?
Cerca de 50 mil, segundo o cirurgião Manuel Antunes, para uma população de mais de 35 milhões de habitantes.
Quanto custa uma cirurgia cardíaca no ICOR?
Entre cinco mil e seis mil euros, cerca de um terço do custo em Coimbra, onde o valor varia entre 12 mil e 15 mil euros.
Quem realiza as cirurgias em Moçambique?
Três cirurgiões moçambicanos operam de forma autónoma desde 2010, realizando cerca de 200 cirurgias por ano, complementadas por missões internacionais como a equipa portuguesa.
