A Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos aprovou nesta segunda-feira (02/11) a primeira versão genérica do lenacapavir, injetável de longa duração que previne o HIV com apenas duas aplicações por ano. Moçambique figura na lista dos 120 países de baixa e média renda que vão receber o medicamento a cerca de 40 dólares por pessoa ao ano.
A aprovação, anunciada pela farmacêutica indiana Dr. Reddy's Laboratories e pela iniciativa global de saúde Unitaid, foi noticiada pelo Último Segundo e confirmada pela própria Unitaid, que sublinhou o ritmo histórico da decisão: chega apenas 16 meses depois da autorização do produto original. O aval é temporário, não permite a venda nos EUA, mas autoriza a distribuição em países em desenvolvimento através de programas de ajuda humanitária.
Um preço que muda as regras do jogo
O lenacapavir foi desenvolvido pela americana Gilead Sciences e aprovado nos EUA em junho de 2025, depois de demonstrar eficácia superior a 99,9% em grandes ensaios clínicos. O problema sempre foi o custo: no Brasil, por exemplo, a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos fixou o preço máximo ao consumidor em 20,9 mil reais por injeção, montante que o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, classificou de inviável.
A versão genérica muda esse quadro. O compromisso, firmado em setembro de 2025 entre a Unitaid, o instituto africano de pesquisa em saúde Wits RHI e a Clinton Health Access Initiative (CHAI), garante o fornecimento a 40 dólares por pessoa ao ano, valor comparável ao das pílulas diárias de prevenção oral. Além de Moçambique, beneficiam-se países como Etiópia, Botsuana, Malawi, Namíbia, Ruanda, Zâmbia e Vietname. Brasil, Peru e México ficam de fora desta via de distribuição.
Como destacou a Exame, a aprovação provisória abre a porta a um medicamento de prevenção quase total a um preço acessível para os sistemas de saúde públicos dos países mais afetados pela epidemia.
Porque o lenacapavir é diferente
O lenacapavir ataca a proteína do capsídeo do HIV, a estrutura que forma uma cápsula protetora em torno do material genético do vírus. Foi eleito Descoberta do Ano de 2024 pela revista Science.
A vantagem prática é enorme para países com sistemas de saúde com recursos limitados. Aplicado duas vezes por ano, de forma semelhante a uma vacina, elimina a dependência do uso contínuo e correto dos comprimidos diários, que é o principal ponto fraco da profilaxia pré-exposição (PrEP) oral, aprovada em 2012. A inovação anterior na área, o cabotegravir, exige injeções a cada dois meses.
Desafio agora é o acesso efetivo
O entusiasmo vem acompanhado de um aviso realista. Segundo a DW, o principal obstáculo deixou de ser a ciência e passou a ser a logística e a implementação nos sistemas nacionais de saúde.
Este é um marco extraordinário para a saúde global. Por muito tempo, pessoas de países de baixa e média renda tiveram de esperar uma década ou mais para acessar medicamentos inovadores, afirmou Carmen Perez-Casas, responsável pela estratégia de HIV e preparação para pandemias da Unitaid, em entrevista à AFP.
Com o lenacapavir, reduzimos esse intervalo para pouco mais de um ano. Ter um genérico aprovado pela FDA por 40 dólares por pessoa ao ano é uma conquista notável, acrescentou.
Perez-Casas estimou que 1,2 milhões de pessoas contraíram HIV no ano passado, apesar de já existir um medicamento que oferece proteção próxima de 100% com duas injeções anuais. A Unitaid trabalha agora com governos e parceiros para apoiar implementações lideradas pelos próprios países, garantindo papel central às comunidades.
A dimensão da epidemia justifica a urgência. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 41 milhões de pessoas viviam com HIV em todo o mundo em 2025 e 570 mil morreram por causas relacionadas ao vírus naquele ano. Para Moçambique, um dos países onde o medicamento foi testado e agora beneficiário do acordo, o genérico representa uma oportunidade concreta de acelerar a prevenção e aliviar a pressão sobre o Serviço Nacional de Saúde.
Perguntas frequentes
O que é o lenacapavir?
É um medicamento injetável de longa duração para a prevenção do HIV, administrado duas vezes por ano, desenvolvido originalmente pela Gilead Sciences e agora disponível em versão genérica.
Quanto vai custar o genérico em Moçambique?
O compromisso firmado em setembro de 2025 fixa o preço em cerca de 40 dólares por pessoa ao ano, em distribuição destinada a 120 países de baixa e média renda, incluindo Moçambique.
Quando chega o medicamento aos países beneficiários?
Ainda não há data definida. A aprovação da FDA autoriza a distribuição humanitária, mas a Unitaid alerta que o desafio agora é transformar a decisão regulatória em acesso efetivo para as populações.
