Hipertensão em Moçambique: lições do Brasil para vencer a 'assassina silenciosa'
Imagine um inimigo que age sem fazer barulho, sem dar sinais claros, mas que está por trás de duas das maiores causas de morte no mundo: o infarto e o AVC. Esse inimigo é a hipertensão arterial, uma condição que afeta pelo menos 30% dos brasileiros e que também preocupa Moçambique, onde as doenças cardiovasculares ganham cada vez mais espaço. O cardiologista Fernando Nobre acaba de lançar o livro Porque Tudo Muda - A História da Hipertensão, que conta a trajetória da ciência no combate a essa doença e traz lições valiosas para países como o nosso.
Nesta entrevista, Nobre explica os avanços no tratamento, o papel do Brasil na pesquisa global e aponta o maior desafio: fazer com que o diagnóstico e o controle cheguem a mais pessoas. Uma mensagem direta para Moçambique, onde a prevenção e o acesso a cuidados de saúde são prioridades para o futuro.
Qual foi o grande ponto de virada na história da hipertensão?
Para Nobre, a década de 1950 marcou um antes e um depois. Foi quando começou o estudo de Framingham, nos Estados Unidos, que acompanhou uma comunidade ao longo de anos e provou, sem margem para dúvidas, que a hipertensão está diretamente ligada a infartos e AVCs. Mais do que isso: mostrou que tratar e controlar a pressão reduz esses riscos. Um conhecimento que hoje orienta médicos no mundo inteiro, inclusive em Moçambique.
Como a ciência brasileira contribuiu para o controle da pressão alta?
O Brasil tem um papel de destaque nessa história. Pesquisadores da USP em Ribeirão Preto, como Sérgio Henrique Ferreira e Maurício Rocha e Silva, descobriram uma forma de inibir a produção de angiotensina II, substância que eleva a pressão arterial. Essa descoberta abriu caminho para uma classe de medicamentos usada até hoje. O mais curioso? A inspiração veio do veneno de uma jararaca, estudado por esses cientistas. Um exemplo de como a inovação pode nascer onde menos se espera.
Nobre, que conviveu com esses pesquisadores, lamenta que eles não tenham recebido o reconhecimento que mereciam, como o Prêmio Nobel. Mas o legado deles é imenso: os medicamentos criados a partir dessa pesquisa são usados no mundo todo, não só para hipertensão, mas também para outras doenças.
O Brasil ainda é relevante na pesquisa sobre hipertensão?
Sim, e muito. O país participa de estudos com novas drogas em parceria com as universidades mais prestigiadas do mundo. Isso mostra que o conhecimento científico não tem fronteiras e que países como Moçambique podem se beneficiar desses avanços, seja por meio de parcerias ou de políticas públicas baseadas em evidências.
Qual é o maior desafio no combate à hipertensão hoje?
Aqui está o ponto que mais interessa a Moçambique. Nobre não esconde a preocupação: “O cenário ainda é desalentador”. Os números falam por si. De cada 100 pessoas com hipertensão, apenas 50 sabem que têm a doença. Dessas, só 25 estão em tratamento. E apenas metade delas, ou seja, 12 ou 13, tem a pressão realmente controlada. Isso significa que a maioria dos hipertensos está desprotegida, correndo risco de infarto ou AVC sem saber.
Para Nobre, o desafio é triplo: melhorar o diagnóstico, garantir o acesso ao tratamento e, principalmente, fazer com que as pessoas sigam o tratamento. Isso exige ação dos governos, das sociedades médicas e da população. Uma lição clara para Moçambique, onde o sistema de saúde pode se inspirar nessas experiências para salvar vidas.
O futuro: tratamentos que podem revolucionar o controle da pressão
A boa notícia é que a ciência não para. Nobre revela que já há estudos em andamento, com participação brasileira, de medicamentos de ação prolongada, que poderiam ser tomados a cada seis meses ou mais. Isso poderia resolver um dos maiores problemas: a adesão ao tratamento. Imagine não precisar tomar comprimidos todos os dias? Para muitos, isso seria a diferença entre viver com saúde ou sofrer as consequências da pressão alta.
Para Moçambique, essa é uma esperança real. Mas, enquanto esses tratamentos não chegam, o caminho é o mesmo que Nobre defende: informação, prevenção e cuidado contínuo. A hipertensão pode ser uma assassina silenciosa, mas com conhecimento e ação, podemos desarmá-la.
“O cenário ainda é desalentador”, diz o cardiologista Fernando Nobre sobre o controle da hipertensão no Brasil, um alerta que ecoa em Moçambique.
Foto: VEJA