Robôs batem recordes humanos em Pequim: o futuro já chegou
Mais de dois mil robôs humanoides competiram em Pequim e bateram recordes mundiais humanos nos 100, 400 e 1500 metros, além do salto em altura. Os humanos ainda dominam o salto em comprimento, mas a mensagem é clara: a tecnologia está a evoluir a uma velocidade impressionante.
Os Jogos Mundiais de Robôs Humanoides, realizados entre 22 e 26 de agosto no National Speed Skating Oval em Pequim, conhecido como Ice Ribbon, trouxeram um vislumbre do futuro. O evento, que parece saído de um filme de ficção científica, mostrou máquinas capazes de superar os maiores atletas da história em provas de velocidade e salto.
Que recordes humanos foram batidos pelos robôs?
O robô Tiangong Ultra, um humanoide vermelho sem cabeça, fez história ao correr os 100 metros em 8,64 segundos, superando os 9,58 segundos de Usain Bolt, o recorde mundial humano desde 2009. Nos 400 metros, o mesmo robô completou a prova em 38,15 segundos, contra os 43,03 segundos de Wayde van Niekerk, recorde estabelecido nos Jogos Olímpicos do Rio em 2016.
Nos 1500 metros, um robô da equipa Tianzhuo conquistou o ouro com 2 minutos e 21,63 segundos, muito abaixo dos 3 minutos e 26 segundos do marroquino Hicham El Guerrouj, recordista mundial desde 1998. No salto em altura, Tiangong Ultra alcançou 2,88 metros a partir da posição parada, superando os 2,45 metros do recorde mundial humano de Javier Sotomayor, embora com regras próprias da competição robótica.
Os humanos ainda têm motivos para celebrar
No salto em comprimento, os humanos mantiveram a supremacia. O robô Tianjiao chegou aos 7,97 metros, mas ficou aquém dos 8,95 metros do norte-americano Mike Powell, recorde mundial desde 1991, segundo a emissora estatal chinesa CCTV.
Esta foi a desforra dos humanos numa competição que ficou conhecida como as Olimpíadas dos Robôs, embora sem qualquer relação com o Comité Olímpico Internacional.
Como funcionaram os Jogos Mundiais de Robôs Humanoides?
A segunda edição do evento contou com 2.056 robôs de 666 equipas de 16 países, que participaram em 51 eventos e 1.301 competições. A esmagadora maioria era chinesa: 1.975 robôs. A competição incluiu futebol, ténis de mesa, boxe, artes marciais, dança, levantamento de pesos e luta de tração.
Um dos destaques foi o peso dado aos desafios práticos. O portal oficial de Pequim confirma 21 desafios baseados em cenários reais, incluindo emergência, hotelaria e operações de precisão. Quarenta por cento destes desafios exigiam que os robôs funcionassem de forma autónoma, enfrentando tarefas inspiradas em ambientes industriais e de serviços.
No futebol, as equipas passaram a ter cinco robôs, obrigando as máquinas a melhorar a perceção espacial e a capacidade de trabalhar em equipa. Um dos robôs conseguiu marcar um golo de livre, celebrando com o famoso Siuuu de Cristiano Ronaldo. A bola não era empurrada por uma máquina: tinham de a ver, aproximar-se, equilibrar-se e rematar.
Quem são os fabricantes destes robôs?
Os grandes fabricantes chineses dominaram a competição. Além do Tiangong, desenvolvido pelo Beijing Humanoid Robot Innovation Center, participaram máquinas de empresas como Unitree, UBTECH, Fourier Intelligence, AgiBot, Leju Robotics, Galbot e RobotEra. A Unitree levou modelos para as provas de velocidade e futebol, enquanto a UBTECH desenvolve robôs destinados à indústria e aos serviços.
A diversidade de fabricantes mostra que a competição já não é apenas sobre construir um robô que consiga andar: é sobre criar máquinas que consigam ver, decidir, agir e aprender num ambiente concebido para humanos.
Os robôs ainda têm muito para aprender
Apesar dos recordes impressionantes, os Jogos também revelaram as limitações das máquinas. Alguns robôs caíram, outros tiveram problemas para travar e houve máquinas que perderam o equilíbrio em provas de força. Um robô caiu num combate de boxe e teve de ser ajudado por humanos, criando um momento caricato. Outro perdeu o equilíbrio no levantamento de pesos e caiu sobre a mesa dos juízes, tendo de ser levado numa maca.
A ironia é quase perfeita: a máquina já consegue correr mais depressa do que o homem mais rápido do mundo, mas ainda está a aprender a lidar com situações inesperadas.
O que significam estes recordes para o futuro?
Os recordes de Pequim devem ser vistos com cautela. Um robô não é um atleta humano: não tem músculos, pulmões ou metabolismo e pode ser construído especificamente para maximizar determinada capacidade. Os resultados não são novos recordes oficiais do atletismo mundial.
O que os números mostram é outra coisa: a velocidade com que a tecnologia está a evoluir. Em 2025, o Tiangong tinha feito os 100 metros em 21,50 segundos. Um ano depois, chegou aos 8,64 segundos. A verdadeira competição joga-se nas fábricas.
Um robô que corre os 100 metros em menos de nove segundos é uma extraordinária demonstração de engenharia. Mas uma máquina capaz de trabalhar durante horas, transportar materiais, combater incêndios, reconhecer um problema, decidir o que fazer e adaptar-se a uma situação imprevista terá um impacto económico muito maior. É essa passagem da demonstração tecnológica para a aplicação industrial e quotidiana que está no centro da aposta chinesa na robótica humanoide, segundo a Reuters.
Os robôs já vencem os humanos em algumas capacidades físicas muito específicas. Ainda não conseguem, porém, fazer aquilo em que os humanos continuam particularmente bons: adaptar-se ao inesperado. A sensibilidade das mãos humanas para determinadas tarefas ainda é imbatível.
Bolt perdeu para uma máquina, mas os humanos continuam a ganhar a prova que verdadeiramente interessa: perceber o que fazer quando as regras mudam. E essa, ao contrário dos 100 metros, ainda não tem recorde mundial. Os robôs já conseguem saltar e correr como os campeões olímpicos, agora falta saber se conseguem trabalhar como os humanos.
Perguntas frequentes sobre os Jogos Mundiais de Robôs Humanoides
Quando e onde aconteceram os Jogos Mundiais de Robôs Humanoides?
Os Jogos aconteceram entre 22 e 26 de agosto no National Speed Skating Oval, o Ice Ribbon, em Pequim, o mesmo recinto utilizado nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022.
Quantos robôs participaram na competição?
Participaram 2.056 robôs de 666 equipas de 16 países, com a esmagadora maioria (1.975) a ser de origem chinesa.
Que provas incluíram os Jogos?
Os Jogos incluíram 30 provas competitivas e 21 desafios baseados em cenários reais, abrangendo futebol, ténis de mesa, boxe, artes marciais, dança, levantamento de pesos, luta de tração, velocidade, salto e tarefas de emergência, hotelaria e operações de precisão.
Os recordes robóticos são considerados oficiais no atletismo?
Não. Os resultados não são novos recordes oficiais do atletismo mundial, pois os robôs não são atletas humanos e podem ser construídos especificamente para maximizar determinadas capacidades, com regras próprias da competição robótica.