Irão enfrenta nova ofensiva económica dos EUA e procura aliados para resistir
A economia iraniana, já pressionada pela elevada inflação, sanções e uma guerra que reduziu drasticamente as receitas petrolíferas, está prestes a enfrentar ainda mais instabilidade com a nova ofensiva anunciada por Washington. A decisão dos Emirados Árabes Unidos de suspender as relações comerciais com o Irão, na semana passada, deu início à mais recente tentativa da Casa Branca de isolar e asfixiar o Irão através da operação 'Pária Económico', que procura impedir qualquer indivíduo ou entidade de estabelecer negócios com a República Islâmica.
O Irão entrou na guerra, lançada há seis meses por Estados Unidos e Israel, com o seu comércio externo concentrado num grupo pequeno de países, o que lhe deixa agora menos opções, segundo uma análise da agência Associated Press (AP) ao impacto das novas sanções norte-americanas. O sucesso da estratégia de Washington dependerá em grande parte da China, o principal comprador do petróleo iraniano e o seu maior parceiro comercial.
Que papel pode a China desempenhar na resistência do Irão?
A China compra a grande maioria do crude ao Irão através de redes comerciais opacas que contornam as sanções e tem laços económicos profundos com o Irão, mas depende menos desta relação. Até agora, Pequim tem evitado envolver-se no conflito iniciado em 28 de fevereiro pelos Estados Unidos e por Israel e que, seis meses depois, continua sem saída diplomática à vista.
O poderio industrial e o controlo sobre o fornecimento de minerais críticos, no entanto, dão à China mais espaço do que os outros parceiros do Irão para resistir à pressão norte-americana, observa David Lubin, investigador-chefe da organização britânica Chatham House, também citado pela AP. Por outro lado, ações agressivas contra os principais bancos e empresas chinesas podem reacender as tensões comerciais, enquanto o Presidente chinês, Xi Jinping, se prepara para se reunir com o homólogo norte-americano, Donald Trump, em Washington no próximo mês.
Que outros parceiros comerciais mantém o Irão?
A Rússia, também alvo de amplas sanções do Ocidente, enfrenta pelo seu lado o conflito militar na Ucrânia e previsões económicas sombrias, que colocam também em dúvida a sua capacidade em fornecer ao seu aliado de longa data apoio financeiro substancial. Parceiros regionais como a Turquia, o Paquistão e o Iraque mantêm relações importantes tanto com o Irão como com os Estados Unidos, o que sugere a existência de argumentos para evitar a exposição às sanções secundárias, que, segundo o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, serão aplicadas aos países que não cortarem os laços económicos com o Irão.
'Aqueles que se alinham com os Estados Unidos colherão os frutos da nossa parceria', disse Bessent na segunda-feira, ao apresentar o seu plano de asfixia do Irão, enquanto 'aqueles que se atrelam ao regime iraniano devem esperar a partilha do seu isolamento'.
Apesar das sanções ocidentais, o Irão, que não é membro da Organização Mundial do Comércio (OMC), negociou 125 mil milhões de dólares (107 mil milhões de euros) em bens a nível global em 2024, de acordo com a empresa Trade Data Monitor. Os Emirados Árabes Unidos, a China e a Turquia concentraram três quartos das importações de mercadorias do Irão e apenas quatro países, China, Iraque, Emirados Árabes Unidos e Turquia, acumularam mais de dois terços das suas exportações não petrolíferas.
Do lado da oferta, os Emirados Árabes Unidos foram a maior fonte de artigos importados no Irão e uma porta de entrada para os canais financeiros, que ajudou as empresas iranianas a fazer e receber pagamentos internacionais, mantendo a República Islâmica ligada à economia global. Como centro de reexportação, os Emirados processaram remessas de fornecedores estrangeiros relutantes em negociar diretamente com clientes iranianos.
'Na perspetiva do Irão, os Emirados Árabes Unidos podem ser substituídos, mas os iranianos estão a dizer abertamente que isso não vai acontecer de um dia para o outro', comentou Alex Vatanka, investigador-chefe do Middle East Institute, em Washington, citado pela AP.
Como está a responder o Irão à pressão económica?
O presidente do parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, que tem sido o principal negociador no diálogo indireto com os Estados Unidos, esteve no Iraque no dia da suspensão do comércio dos Emirados Árabes Unidos. A visita, explicou, tinha como um dos seus objetivos principais 'acelerar os esforços para expandir a cooperação conjunta entre todos os países da região, sem interferência estrangeira'.
A preeminência do dólar norte-americano no comércio e nas finanças internacionais, no entanto, significa que nenhum dos parceiros comerciais do Irão antagonizaria Washington de ânimo leve, segundo Vatanka. Ao mesmo tempo, as negociações de paz entre Estados Unidos e Irão estão praticamente paralisadas, com os países mediadores da região a insistir na necessidade de uma saída diplomática, apesar da tensão crescente sobre os bloqueios de Teerão e Washington à navegação comercial na região.
Ghalibaf afirmou esta quinta-feira que o Irão enfrenta uma 'guerra económica total', mas sublinhou que 'o inimigo será derrotado' também nesta frente. 'Em breve assistiremos ao descrédito das operações psicológicas do inimigo nesta área', afirmou, em declarações divulgadas pela agência noticiosa Mehr. O político observou que 'numa altura em que a guerra gerou consequências diretas para a economia do país, o inimigo mobilizou todos os seus recursos para exercer maior pressão sobre o povo iraniano'.
Em resposta, afirmou, 'as autoridades implementaram medidas eficazes para governar e sanar as suas fragilidades', defendendo que se siga as recomendações do líder supremo, Mojtaba Khamenei, 'sobre a unidade, a coesão nacional e a confiança' como base para que 'as autoridades do país superem os desafios e melhorem a posição da República Islâmica do Irão'. O presidente do parlamento afirmou ainda que, 'perante circunstâncias tão críticas', o Governo deve preservar 'os valores do país, priorizar o bem-estar da população, o seu poder de compra, o emprego dos jovens e a segurança económica', bem como aliviar o fardo que enfrenta neste período.
Qual é o estado atual das negociações entre Washington e Teerão?
Washington e Teerão acordaram em 17 de junho um memorando de entendimento, que incluiu um cessar-fogo imediato, o fim das ameaças militares iranianas no estreito de Ormuz, por onde passavam 20% dos hidrocarbonetos mundiais antes da guerra, e o levantamento do bloqueio naval entretanto imposto pelos Estados Unidos aos portos do Irão. As partes voltaram no entanto à confrontação e aos respetivos bloqueios navais e não prosseguiram as negociações previstas no memorando para alcançarem um acordo de paz definitivo, cujo prazo de dois meses já expirou.
O Irão exige que os Estados Unidos voltem aos compromissos assumidos no memorando e o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros reiterou que o estreito de Ormuz só será 'reaberto em troca do fim da guerra em todas as frentes e do levantamento do bloqueio americano' aos portos iranianos. À margem dos Estados Unidos, Irão e Omã têm negociado um acordo bilateral para a criação de uma rota segura temporária em Ormuz, antes de abrirem um prazo até dois meses com vista a um esquema permanente, que pode implicar a cobrança de portagens aos navios comerciais.
Donald Trump já avisou que se opõe a partes do acordo entre Teerão e Mascate, e ameaçou Omã com bombardeamentos caso o sultanato se colocasse 'no caminho' dos interesses de Washington. Na quarta-feira, disse que não tem pressa nem prazo para voltar ao diálogo com Teerão, uma posição reforçada esta quinta-feira pela porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, à cadeia Fox News, referindo que os Estados Unidos não estão atualmente envolvidos em conversações ativas. 'Esta situação vai persistir até que o Presidente acredite que o outro lado está disposto a sentar-se à mesa das negociações', frisou.