Carlos Kangoma: 'Se um dia os trabalhadores dos bairros fizessem greve, o país parava'
O ativista e músico moçambicano Carlos Kangoma, conhecido artisticamente como Lucy, defende que as comunidades periféricas são o motor da economia do país. Em entrevista ao podcast 'O Tal', ele afirma que os trabalhadores dos bairros realizam serviços essenciais e que uma greve geral destes profissionais paralisaria Moçambique.
Kangoma, que cresceu num bairro da periferia de Maputo, recorda uma infância marcada pela discriminação e pela repressão policial. 'O primeiro contacto com a polícia foi aos 11 anos, enquanto jogava à bola', conta. 'Existe uma marginalização violenta, tanto física como psicológica.'
Apesar disso, o ativista rejeita os estereótipos que associam os bairros à criminalidade. 'As pessoas dos bairros são trabalhadoras. Fazem os trabalhos de primeira necessidade. Se um dia todas fizessem greve, o país parava', sublinha. Ele destaca o forte sentido de comunidade e a resiliência destas populações.
Filho de pais que fugiram de Angola após a independência, Kangoma reflete sobre o trauma migratório e as desigualdades que persistem na sociedade moçambicana. Critica o sistema educativo, que considera 'muito eurocêntrico' e incapaz de valorizar a diversidade cultural do país.
A música surge como ferramenta de transformação social. 'Quem cria também influencia. Isso implica um compromisso com a realidade de quem raramente vê a sua experiência representada no espaço público', afirma. Para Kangoma, o rap pode ser 'uma forma de jornalismo', dando voz às comunidades periféricas.
O ativista também fala do trabalho do movimento Vida Justa, que atua no terreno junto das comunidades. 'O ativismo é uma forma de resistência', defende. 'A transformação social depende da capacidade das pessoas se unirem para reivindicar direitos e construir um futuro mais justo.'
A conversa completa pode ser ouvida no podcast 'O Tal', disponível nas plataformas digitais.
Quem é Carlos Kangoma?
Carlos Kangoma, conhecido como Lucy, é um músico e ativista moçambicano. Cresceu nos bairros periféricos de Maputo e usa a música como plataforma para denunciar desigualdades e promover a inclusão social. É um dos fundadores do movimento Vida Justa.
O que é o movimento Vida Justa?
O Vida Justa é um movimento de base que atua junto das comunidades periféricas. Promove a organização coletiva para enfrentar desigualdades, reivindicar direitos e construir alternativas de desenvolvimento local.
Como o rap pode ser uma forma de jornalismo?
Para Kangoma, o rap permite contar histórias e denunciar realidades que a imprensa tradicional muitas vezes ignora. As letras das músicas funcionam como reportagens sobre a vida nos bairros, dando voz a quem não tem espaço nos meios de comunicação convencionais.
Foto: Jornal Expresso