Realidade virtual silencia vozes de paciente com esquizofrenia após 27 anos
Uma terapia inovadora com realidade virtual (VR) ajudou uma mulher dinamarquesa a silenciar as vozes que a atormentaram durante 27 anos. Vibeke Andersen, de 53 anos, foi diagnosticada com esquizofrenia paranóide e participou num ensaio clínico que a levou a confrontar uma versão virtual das vozes que ouvia. O resultado foi tão surpreendente que, cinco anos depois, as vozes não voltaram e ela descreve-se como uma pessoa livre.
Como funciona a terapia com realidade virtual para esquizofrenia?
Em vez de tentar ignorar ou afastar as vozes, a terapia pede aos pacientes para enfrentarem um avatar virtual criado a partir da descrição da voz dominante que ouvem. Terapeutas do grupo de investigação VIRTU, do Hospital Universitário de Copenhaga, usaram software especializado para ajustar a aparência e o som do avatar até se aproximarem da experiência do paciente.
Quando Andersen colocou os óculos de VR, o avatar apareceu à sua frente. O terapeuta repetia frases que ela costumava ouvir, usando um software de transformação de voz. A ideia é que, ao entrar numa conversa e responder à voz, o paciente retome o poder e o controlo sobre ela, explica Louise Birkedal Glenthøj, responsável pelo grupo VIRTU e professora associada na Universidade de Copenhaga.
Um tratamento difícil, mas transformador
O processo foi tão intenso que, por volta da quarta ou quinta sessão, os terapeutas consideraram interromper o tratamento. Andersen, porém, recusou desistir. Numa das últimas sessões, foi a uma floresta e gritou com a voz: “Vão-se lixar. Já não quero estas vozes. Tinham de sair da minha vida.”
O ensaio, chamado CHALLENGE, incluiu 270 pessoas com perturbações do espetro da esquizofrenia e alucinações auditivas persistentes. Os resultados, publicados em 2025 na revista The Lancet Psychiatry, mostraram que a terapia em VR reduziu significativamente a gravidade das alucinações ao fim de 12 semanas, em comparação com o grupo de controlo. Os pacientes também ouviam vozes com menos frequência às 12 e 24 semanas.
Tratamento seguro e tolerável, mas não para todos
Glenthøj sublinha que a abordagem pode ser avassaladora para alguns pacientes. “Pode haver uma fase de agravamento dos sintomas, mas isso passa e, depois, espera-se que haja um maior controlo”, diz. Os terapeutas ajustam o ritmo da terapia a cada pessoa, e o tratamento tem-se mostrado “seguro e tolerável” no geral.
Uma hipótese para o sucesso é a “externalização”: transformar um sintoma invisível em algo que o paciente pode ver, ouvir e a que pode reagir dá-lhe mais controlo. “Com a realidade virtual conseguimos fazer a ponte entre a vida diária dos doentes e a terapia”, afirma Glenthøj.
O que sentiu a paciente depois do tratamento?
Quando Andersen chegou à última sessão, a voz já tinha desaparecido. “Cheguei ao último tratamento depois do Natal e disse: ‘Não tenho de me despedir de algo que já não existe.’ Por isso, saí da sessão. Disse: ‘Acho que estou curada’”, conta. Seis meses depois, continuava sem ouvir vozes e, cinco anos mais tarde, garante que não voltaram.
Desde então, começou a estudar para se tornar assistente social. “Senti, pela primeira vez na vida, que a minha vida tinha algum sentido. Era um ser humano. Não era apenas um número num sistema”, afirma.
O próximo passo é a inteligência artificial
O grupo VIRTU está agora a estudar a utilização de VR em psicose, perturbações alimentares, ansiedade social, autismo e depressão. Um dos objetivos é integrar inteligência artificial (IA) nas intervenções, para chegar a mais pacientes. A ideia é desenvolver um terapeuta virtual com apoio de IA a que os doentes possam aceder fora da clínica, para praticar estratégias de coping e reforçar o que aprenderam.
“Não conseguimos dar terapia a todos os doentes que realmente precisam”, diz Glenthøj. “Se conseguirmos utilizar a IA de forma segura e ética, isso será muito útil.” O grupo está também a experimentar IA generativa para recriar cenários do passado dos pacientes em VR, mas com rigorosas salvaguardas clínicas e éticas.
A esquizofrenia afeta cerca de 23 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. Esta terapia inovadora abre novas esperanças para milhões de pessoas que vivem com alucinações auditivas persistentes.