A Europa Ocidental enfrenta a sua segunda onda de calor intensa em menos de um mês, com temperaturas a ultrapassar os 40 graus em várias regiões. O Atlântico regista anomalias térmicas de até seis graus, perdendo a capacidade de moderar o clima continental. Para especialistas como a climatóloga Rita Cardoso, do Instituto Dom Luiz, estes extremos provam que vivemos num novo clima. O cenário desafia a saúde pública e os sistemas tradicionais, mas abre espaço crucial para a inovação tecnológica e a adaptação como única via para o futuro.
Porque é que o calor regressa tão depressa à Europa?
Portugal ainda não recuperou da onda de calor excecional de maio e já se prepara para um novo episódio. O Instituto Português da Meteorologia e Atmosfera (IPMA) lançou avisos para temperaturas acima do normal entre 22 e 28 de junho. O pico será nos dias 23 e 24, quando a temperatura máxima deverá superar os 35°C em todo o país, exceto na faixa costeira.
A sucessão destes episódios levanta questões relevantes. Rita Cardoso faz questão de distinguir o normal do anormal.
Haver duas ondas de calor tão seguidas não é nada que não tenha já acontecido. Mas também não podemos dizer que seja normal.
O que torna 2026 diferente é a altura do ano em que tudo começou. A onda de calor de maio foi demasiado precoce e intensa. A primavera deixou de ser um refúgio fresco, antecipando o verão e exigindo novas respostas.
O ciclo dos solos secos
Uma parte importante da resposta está no estado dos solos. Depois de uma onda de calor intensa, a água disponível à superfície diminui rapidamente. Quando isso acontece, a forma como a energia solar é utilizada muda completamente.
Quanto mais secos estiverem os solos, menos energia do sol é usada para evaporar a água que está no chão. Como não há água no solo para evaporar, essa energia é toda usada para aquecer.
É um ciclo que se reforça a si próprio. O calor seca os solos, os solos secos facilitam mais aquecimento e esse aquecimento favorece novas ondas de calor. A segunda vaga não começa num território neutro. Começa num território que já perdeu parte da sua capacidade natural de defesa.
O Atlântico perde o poder de arrefecer o continente
Durante décadas, o Atlântico foi um dos principais moderadores do clima europeu. Mas esse papel está a mudar drasticamente.
O Atlântico não consegue limpar este calor porque está quente. Essa é a razão. Estamos a viver outro tipo de clima. O Atlântico está a ferver nos mapas da temperatura.
Os modelos meteorológicos mostram anomalias de temperatura no Atlântico da ordem dos seis graus, e de cinco graus fora da costa portuguesa. Mesmo a nortada habitual não consegue arrefecer as águas. No Mar do Norte, Canal da Mancha e Golfo da Biscaia, as anomalias chegam aos sete graus. O oceano fornece calor adicional à atmosfera, em vez de frescura, tornando a Europa Ocidental mais vulnerável.
A posição da corrente de jato e uma forte alta pressão em altitude criam uma cúpula de calor. Esta estrutura não deixa o ar frio entrar nem o ar quente sair, expandindo a massa de ar quente desde a Península Ibérica até ao Reino Unido.
Noites tropicais e o risco silencioso para a saúde pública
Uma das ideias mais repetidas pelos especialistas é que o verdadeiro perigo nem sempre está nas máximas da tarde, mas nas noites. O problema surge quando o corpo humano deixa de conseguir libertar o calor acumulado.
O que nós chamamos noites tropicais são dramáticas para pessoas vulneráveis. Com certeza vão aumentar o número de enfartes, as pessoas vão ficar descompensadas em todas as suas patologias.
Em 2025, Portugal registou 1300 mortes em excesso após a vaga de calor do final de julho. A Direção-Geral da Saúde já ativou o plano de contingência de nível 1. Miguel Telo de Arriaga, diretor dos Serviços de Prevenção da Doença, alertou para as mortes silenciosas, onde o calor funciona como um gatilho para exacerbar doenças de base. A inovação nos cuidados de saúde e na proteção ativa das populações é agora mais urgente do que nunca.
Inovação e adaptação: o caminho para um futuro resiliente
As alterações climáticas não causam diretamente a onda de calor, mas aumentam a sua probabilidade, intensidade e duração. A mesma configuração atmosférica de há décadas atua hoje sobre um planeta mais quente. Os extremos são mais extremos.
A previsão aponta para duas ou três ondas de calor por ano em média, com duração que pode chegar aos 13 dias em zonas do interior. O verão já não tem três meses fixos, estendendo-se por cinco meses, de maio a setembro.
Para países como Moçambique, que enfrentam desafios semelhantes com o aquecimento do Oceano Índico, a lição é clara. A inovação tecnológica, os sistemas de alerta precoce, a agricultura inteligente e o empreendedorismo jovem focado na adaptação climática são as ferramentas mais poderosas para transformar um cenário assustador numa oportunidade de construir resiliência.
O que dizem os modelos meteorológicos para os próximos dias?
Espanha prepara-se para temperaturas acima dos 40 graus, com Córdoba a aproximar-se dos 44°C e Madrid dos 40°C. França colocou 53 departamentos sob vigilância, com Paris, Toulouse e Lyon perto dos 42°C. O Reino Unido prevê temperaturas acima dos 30°C no sul.
Em Portugal, os distritos mais expostos são Bragança, Vila Real, Guarda, Castelo Branco, Portalegre, Évora, Beja e Santarém, podendo ultrapassar os 38°C. Lisboa pode atingir 33 a 35°C e o Porto deverá ultrapassar os 30°C. O Governo proibiu já fogueiras, queimadas e o lançamento de balões de São João.
O risco de incêndio está no máximo, principalmente no Centro e Sul. As tempestades do inverno deixaram muito combustível no chão. A Proteção Civil e a GNR já estão em campo. Haverá também poeiras do deserto, garantido pelos modelos.
Perguntas Frequentes sobre as Ondas de Calor
O que causa a repetição de ondas de calor tão seguidas?
A repetição é causada por um ciclo de retroalimentação. O calor extremo seca os solos, e sem água para evaporar, toda a energia solar se transforma em aquecimento direto da superfície e do ar. Isso facilita a formação de novas ondas de calor sobre um território já fragilizado.
O que são noites tropicais e porque são perigosas?
Noites tropicais ocorrem quando a temperatura mínima não desce abaixo dos 20°C. São perigosas porque o corpo humano não consegue arrefecer durante a noite, o que acumula stress térmico e descompensa doenças de base, causando mortalidade excessiva, sobretudo em idosos.
Como é que o aquecimento do Atlântico afeta o clima global?
Um Atlântico mais quente perde a sua função histórica de moderador térmico. Em vez de arrefecer o continente, fornece calor e humidade extra à atmosfera. Isto não só agrava as ondas de calor na Europa, como também alimenta tempestades e furacões tropicais noutros pontos do globo.