A Câmara de Nova Iorque publicou esta quarta-feira, 21 de outubro, mais 40 mil documentos sobre os atentados de 11 de Setembro de 2001, num total que ultrapassa as 200 mil páginas, depois de uma batalha judicial de vários anos pelo acesso à informação sobre a qualidade do ar no Ground Zero.
A divulgação, anunciada pelo autarca Zohran Mamdani, encerra dois processos judiciais movidos contra a cidade pela organização 9/11 Health Watch e termina com anos de restrições ao acesso a registos sobre a exposição a substâncias tóxicas no local das antigas Torres Gémeas. Os documentos estão disponíveis para consulta pública num portal criado pela cidade, segundo a Notícias ao Minuto.
Transparência que não se limita às datas de aniversário
Num comunicado, Mamdani sublinhou que o compromisso da cidade com as vítimas exige mais do que cerimónias anuais.
«O nosso compromisso de honrar as vítimas dos terríveis atentados terroristas de 11 de setembro, e de oferecer transparência e prestação de contas aos sobreviventes, não pode começar nem terminar no dia do aniversário», afirmou o autarca.
Mamdani recordou que equipas de emergência, representantes eleitos e familiares das vítimas de doenças relacionadas com os atentados exigiam há anos a publicação destes documentos. Mais registos serão divulgados nos próximos meses, acrescentou.
O «Memorando Harding» e a Caixa 68
O portal reúne arquivos sensíveis, entre os quais o documento conhecido como «Memorando Harding». Atribuído a Robert Harding, vice-presidente da Câmara em 2001, o texto alertava em privado para os graves riscos de exposição a substâncias tóxicas no Ground Zero, precisamente quando as autoridades municipais e federais garantiam publicamente que o ar na baixa de Manhattan era seguro.
Estão também publicados os 170 mil documentos da chamada «Caixa 68», cuja divulgação foi determinada por Mamdani em setembro. Segundo denúncias dos afetados, esses registos evidenciam que as autoridades ocultaram informações sobre a toxicidade do ar após os atentados, como relata o jornal Deia. Na primeira divulgação, em setembro, a cidade já tinha tornado públicos registos ligados à qualidade do ar no local da calamidade.
Riscos para a saúde e resposta das autoridades
Benjamin Chevat, diretor executivo da 9/11 Health Watch, afirmou que a análise dos documentos publicados revelou «um cenário preocupante».
Segundo Chevat, mesmo depois de compreendida a magnitude dos riscos, as autoridades municipais, estaduais e federais não alteraram a sua estratégia. Isso atrasou o regresso dos moradores às suas casas, escolas e locais de trabalho, ou pelo menos impediu a realização de trabalhos de limpeza mais eficazes.
Chevat reconheceu, ainda, o papel do presidente da Câmara e do assessor jurídico da cidade, Steve Banks, no acordo que permitiu tornar públicos os documentos. A publicação completa dos 40 mil novos registos foi confirmada por vários órgãos de comunicação internacionais, incluindo a Infobae e a TN.
Um investimento na memória e na prestação de contas
Para Maputo Agora, o caso oferece uma lição que ultrapassa as fronteiras de Nova Iorque. Em democracias saudáveis, a transparência não é um favor das autoridades, é um dever. Quando o Estado esconde informação que afeta a saúde dos cidadãos, o custo paga-se durante décadas, sobretudo pelos trabalhadores de emergência e pelos moradores que respiraram aquele ar.
O orçamento municipal de Nova Iorque para o ano fiscal de 2027 inclui 34 milhões de dólares para a manutenção do portal de registos públicos. É um sinal claro: a prestação de contas exige estrutura, recursos e continuidade, não apenas anúncios pontuais.
Mozambique conhece bem o valor dos arquivos abertos. Em contextos de reconstrução e de luta contra a corrupção, o acesso à informação pública é a primeira ferramenta do cidadão. O exemplo de Nova Iorque mostra que abrir os arquivos, mesmo tarde, ainda é melhor do que mantê-los fechados.
Perguntas frequentes
Quantos documentos foram publicados sobre o 11 de Setembro?
A Câmara de Nova Iorque divulgou mais 40 mil documentos nesta fase, somando mais de 200 mil páginas no total, disponíveis no portal nyc.gov/sep11docs.
O que é o «Memorando Harding»?
É um documento atribuído a Robert Harding, vice-presidente da Câmara em 2001, que alertava em privado para os riscos tóxicos no Ground Zero enquanto as autoridades garantiam que o ar era seguro.
Quem exigia a publicação destes documentos?
Equipas de emergência, representantes eleitos, familiares de vítimas e a organização 9/11 Health Watch, que moveu dois processos judiciais contra a cidade.
Haverá mais divulgações?
Sim. O autarca Zohran Mamdani anunciou que mais documentos serão publicados nos próximos meses.
