Quase um milhão de votos em disputa: O que a renovação política no Brasil ensina a Moçambique
No Rio Grande do Sul, cinco deputados federais decidiram não concorrer à reeleição em 2026, deixando um espólio de 925 mil votos. Este movimento, que representa 11% do eleitorado estadual, abre uma janela de oportunidades para novos nomes e estratégias partidárias. Em Maputo, onde a juventude clama por renovação e transparência, este caso brasileiro oferece lições valiosas sobre como a política pode se reinventar.
Por que cinco deputados estão a sair?
Dos 31 parlamentares gaúchos, cinco decidiram não renovar os mandatos. Entre eles estão os três mais votados em 2022: Luciano Zucco (PL), Marcel van Hattem (Novo) e Paulo Pimenta (PT). Juntos, estes três somam 739 mil votos. Completam a lista Márcio Biolchi (MDB) e Ubiratan Sanderson (PL).
Biolchi é o único que abandona a vida pública para a iniciativa privada. Os restantes candidatam-se a outros cargos: Zucco ao governo do Estado, Van Hattem, Pimenta e Sanderson ao Senado. Esta estratégia de migração vertical mostra como os políticos podem buscar novos desafios sem perder a base eleitoral.
O que está a mudar nos partidos?
O PSD ganhou força, passando de um para três deputados. O MDB perdeu Osmar Terra para o PL e, com a saída de Biolchi, terá apenas Alceu Moreira a concorrer. O PL também recebeu Maurício Marcon, ex-Podemos. O PT, maior partido gaúcho com seis deputados, manteve-se estável.
Segundo o cientista político Carlos Eduardo Borenstein, estas trocas devem-se ao desconforto dos deputados nos seus partidos e ao pragmatismo. “Nas novas legendas, eles terão uma estrutura melhor, com mais recursos e tempo de propaganda eleitoral”, explica.
Como os partidos estão a preparar-se para 2026?
Com 925 mil votos em aberto, os partidos reforçam as suas listas com nomes competitivos. No PL, as apostas são o ex-prefeito Diogo Siqueira e os vereadores Jessé Sangalli e Fernanda Barth. No Novo, o objetivo é transferir os votos de Van Hattem para o deputado estadual Felipe Camozzato. No PT, Laura Sito e Valdeci Oliveira tentam herdar a votação de Pimenta.
Borenstein destaca que “os partidos com candidato próprio a governador têm vantagem inicial, pois há mais visibilidade e ajuda a memorizar os números”. Este ano, o PT não terá candidato a governador, o que pode ser um desafio.
Qual a estratégia para conquistar os eleitores?
Os partidos estão a apostar em nomes conhecidos para reativar a memória do eleitor. O MDB foca em Juvir Costella, Vilmar Zanchin e Patrícia Alba. O PP filiou Onyx Lorenzoni, que tenta voltar ao Congresso. O PDT aposta no vereador Márcio Bins Ely e no ex-deputado Enio Bacci. O Republicanos investe em Gustavo Victorino, e o PSOL quer eleger Roberto Robaina.
O Podemos aposta no regresso do comunicador Sérgio Zambiasi, senador entre 2003 e 2011. Conforme Borenstein, “ter um nome conhecido é um diferencial, ainda mais com a saída desses deputados mais votados”.
O que esperar da pulverização dos votos?
A tendência é que os votos dos cinco deputados se espalhem dentro dos próprios partidos. Borenstein projeta: “Eventualmente pode migrar para outro partido, mas do mesmo campo ideológico. O eleitor do Zucco, do Van Hattem e do Pimenta são ideologicamente muito sólidos”.
Este cenário mostra que, mesmo com a saída de figuras fortes, a lealdade ideológica pode manter os votos dentro do mesmo espectro político.
Lições para Moçambique
Para Moçambique, onde a juventude exige mais transparência e renovação, este caso brasileiro ilustra como a política pode ser dinâmica. A saída de deputados experientes abre espaço para novas vozes, mas exige estratégias claras dos partidos. A aposta em nomes conhecidos e a transferência de votos dentro do mesmo campo ideológico são táticas que podem ser adaptadas ao contexto moçambicano.
A renovação política não é apenas uma questão de mudar rostos, mas de garantir que os novos líderes tragam inovação e compromisso com o desenvolvimento. Em Maputo, o desafio é transformar a insatisfação em oportunidades reais de mudança.
Quem não vai concorrer à reeleição no RS:
- Luciano Zucco (PL): 259.023 votos em 2022
- Marcel van Hattem (Novo): 256.913 votos em 2022
- Paulo Pimenta (PT): 223.109 votos em 2022
- Márcio Biolchi (MDB): 99.627 votos em 2022
- Sanderson (PL): 86.690 votos em 2022