O Índice Mo Ibrahim de Governação Africana de 2026, divulgado este sábado, 31 de outubro, no Cairo, coloca Moçambique no 29.º lugar entre 54 países, numa trajetória classificada de deterioração crescente ao longo da última década.
O país teve uma pontuação em 2025 pior do que a registada em 2016, segundo o relatório da Fundação Mo Ibrahim, que analisa o período de 2016 a 2025. Moçambique integra o grupo de sete países africanos onde a deterioração se acelerou, a par do Burkina Faso, do Níger e da Guiné-Bissau.
O que revela o Índice Mo Ibrahim de Governação 2026
De acordo com a reportagem da RFI, o novo índice mostra que a governação em África registou progressos na última década, mas os ganhos são desiguais e frágeis. A deterioração persiste nos campos da segurança, do Estado de direito e da participação.
As infraestruturas registam o maior avanço das 16 subcategorias do índice, com destaque para a rede móvel, o acesso à energia e à internet. A educação melhorou em 34 países, que representam 75% da população continental, e a saúde em 40 países, cobrindo 87% dos africanos.
Os melhorias económicas chegaram a 44 países, mas o quadro político escurece. A segurança e o Estado de direito pioraram em 34 países que abrangem 78% da população africana, e a participação, os direitos e a inclusão recuaram em 31 países, com 60% da população do continente.
Os resultados do IIAG de 2026 destacam a resiliência de África num ambiente global difícil. Mostram também que muitos países conseguem alcançar desenvolvimento económico e humano apesar da deterioração da segurança e do Estado de direito.
As palavras são de Mo Ibrahim, presidente e fundador da Fundação Mo Ibrahim, citado no relatório.
Porque Moçambique suscita preocupação
Moçambique não viveu nenhum golpe de Estado no período analisado, ao contrário dos restantes países do grupo em regressão acentuada, seis dos quais registaram golpes. Ainda assim, o relatório não deixa de levantar preocupações, como nota também o jornal O País.
A fundação aponta Moçambique, juntamente com o Burkina Faso, a Etiópia, o Mali e a Tunísia, como um dos Estados com maior deterioração na subcategoria Direitos. O país registou igualmente declínio nas subcategorias de igualdade das mulheres, segurança e participação.
Para um país que aposta no gás, na agricultura e na economia azul para atrair investimento, o sinal é claro: sem Estado de direito e sem direitos garantidos, o crescimento económico perde credibilidade. A agenda liberal de reformas, transparência e combate à corrupção que Moçambique diz querer seguir exige resultados mensuráveis, não apenas discursos.
Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe também recuam
A Guiné-Bissau caiu para o 45.º lugar e substituiu a Tunísia no grupo dos dez piores, juntamente com a Líbia. O país desceu cinco posições na última década e é o segundo com maior deterioração do continente na subcategoria Educação.
São Tomé e Príncipe caiu uma posição para o 13.º lugar na classificação geral. O arquipélago integra o grupo de nove países onde tanto a segurança e o Estado de direito como as bases para oportunidades económicas se deterioraram entre 2016 e 2025, ao lado de Comores, República Democrática do Congo, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Nigéria, África do Sul, Sudão do Sul e Sudão. Na saúde, é o segundo país africano com maior deterioração na década, apenas superado pela Gâmbia.
Angola sai do grupo dos dez piores
Angola desceu para o 37.º lugar em comparação com 2024, mas sai este ano do grupo dos países piores colocados e figura entre as dez nações com maior evolução na última década, a par do Gabão, da Gâmbia e da Zâmbia.
O índice destaca o desempenho angolano em políticas e regulamentação ambiental, paridade de género na educação e economia rural, num contexto em que a agricultura passou a representar cerca de 20% do Produto Interno Bruto, ultrapassando o petróleo.
O relatório associa o progresso na subcategoria Anticorrupção às reformas impulsionadas após a tomada de posse do Presidente João Lourenço, em 2017, incluindo a lei de 2018 sobre a repatriação voluntária de ativos no estrangeiro e a criação do Serviço Nacional de Recuperação de Ativos. É a prova de que a luta contra a corrupção dá frutos mensuráveis quando existe vontade política.
Cabo Verde mantém-se entre os melhores
Cabo Verde mantém-se no 3.º lugar da classificação. O arquipélago é o segundo melhor país africano nas subcategorias Estado de Direito e Justiça e em Participação, lidera na categoria de Direitos e pontua bem na igualdade das mulheres, desempenho que contrasta com a tendência continental: quase 80% dos cidadãos africanos vivem em 36 países onde os direitos regrediram na década analisada.
Mesmo assim, o relatório constata que Cabo Verde integra o grupo de Estados onde a segurança e o Estado de direito e as bases para oportunidades económicas se deterioraram na última década. As Seicheles lideram a classificação geral, e Marrocos substituiu a Tunísia no grupo dos dez primeiros.
Uma década de ganhos frágeis
Como sintetiza o Executive Digest, o índice avalia o desempenho de forma bienal e a edição de 2026 confirma um continente a crescer economicamente mas a recuar democraticamente. Um estudo divulgado pela Yahoo News chega à mesma conclusão: as condições económicas melhoraram em muitas regiões, enquanto as liberdades políticas pioraram.
Para Moçambique, o desafio dos próximos anos é inverter a curva. O país tem juventude, recursos e posição estratégica; falta consolidar instituições, garantir direitos e abrir espaço à participação. O índice volta a ser divulgado em 2028 e será a termómetro do que o país conseguir ou não corrigir até lá.
Perguntas frequentes
Que lugar ocupa Moçambique no Índice Mo Ibrahim 2026?
Moçambique ocupa o 29.º lugar entre 54 países africanos, com uma pontuação em 2025 pior do que a de 2016 e uma trajetória de deterioração crescente.
Quando foi divulgado o Índice Mo Ibrahim de Governação 2026?
O índice foi divulgado no sábado, 31 de outubro de 2026, na cidade do Cairo, no Egito, pela Fundação Mo Ibrahim.
Quais são os melhores e piores colocados no índice?
As Seicheles lideram a classificação, seguidas de Cabo Verde no 3.º lugar. A Líbia e a Guiné-Bissau entraram no grupo dos dez piores, de onde saíram Angola e a República do Congo.
