Javalis em Portugal: 300 mil animais e um plano de controlo em debate
Portugal continental enfrenta um desafio crescente: a população de javalis, estimada em cerca de 300 mil animais, está a causar impactos na agricultura, na biodiversidade e até no turismo de natureza. O Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) admite que o número atual ronda os 300 mil exemplares, um valor que supera a estimativa de 277 mil feita em 2022 pela Universidade de Aveiro.
Porque é que a população de javalis aumentou tanto em Portugal?
O aumento deve-se a vários fatores: mudanças no uso do solo, maior disponibilidade de alimentos de origem humana, dispersão natural e a falta de predadores de topo. O ICNF sublinha que os javalis são animais autóctones e fazem parte da fauna tradicional, mas a sua densidade elevada representa riscos para os ecossistemas e para a saúde pública.
Que medidas estão a ser tomadas para controlar os javalis?
No Parque Natural de Sintra-Cascais, estima-se que tenham sido abatidos 141 javalis no ano cinegético 2025-2026, com base numa taxa de concretização de 70%. No entanto, o estudo da Universidade de Aveiro recomenda um aumento do esforço de caça, pois a taxa de extração atual não é suficiente para controlar a população e os seus impactos.
Carlos Albuquerque, diretor regional de Conservação da Natureza e das Florestas de Lisboa e Vale do Tejo, explicou que o objetivo não é eliminar os javalis, mas sim evitar que a situação se agrave. “O javali faz parte da nossa fauna tradicional, autóctone, mas não queremos ter em Sintra-Cascais o que já vamos tendo noutros parques”, afirmou, referindo-se a casos como o da Arrábida, onde os javalis já aparecem em áreas urbanas e balneares.
O que está a ser feito para envolver os proprietários e a comunidade?
O ICNF vai reunir-se com os proprietários da serra de Sintra para os convidar a participar na revisão do plano de gestão da área protegida. Em cima da mesa está a possibilidade de usar armadilhas do tipo jaula, uma solução que o instituto diz estar disposto a institucionalizar. “Se os proprietários querem ir para soluções tipo jaulas, não temos nada contra”, disse Albuquerque.
Impactos na saúde pública e na biodiversidade
Os javalis são considerados “reservatórios e hospedeiros” de vários agentes patogénicos, podendo transmitir doenças ao homem e a outras espécies, incluindo carnívoros, ruminantes e aves. Além disso, a sua dieta inclui invertebrados e vertebrados, contribuindo para a regressão de aves que nidificam no solo, como codornizes, perdizes e noitibós.
Números oficiais de abates na região de Lisboa e Vale do Tejo
Na região de Lisboa e Vale do Tejo, estima-se que tenham sido abatidos oficialmente cerca de 6.450 javalis no ano cinegético 2025-2026, considerando uma taxa de concretização de 80% das autorizações concedidas. No Parque Natural da Arrábida, os números oficiais rondam os 700 animais por ano.
O ICNF defende que o controlo da população de javalis é essencial para proteger a biodiversidade, a agricultura e o turismo de natureza, mas alerta que é preciso encontrar um equilíbrio entre a conservação da espécie e a gestão dos seus impactos.