Eleições no Brasil: a guerra de narrativas que esquece o eleitor
Nas últimas semanas, o debate eleitoral brasileiro foi dominado por crises institucionais, acusações cruzadas e polêmicas que pouco têm a ver com o que realmente preocupa o cidadão. Enquanto Lula e Flávio Bolsonaro trocam farpas sobre o STF, o Banco Master e as relações com os EUA, as perguntas sobre saúde, educação e segurança ficam em segundo plano. Uma análise para quem quer entender o que está em jogo no Brasil e o que isso significa para a democracia na região.
O caso Banco Master e a crise do STF
A sessão do Supremo Tribunal Federal sobre as relações do ministro Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro ampliou a crise de confiança na Corte. O pedido de vista de Flávio Dino interrompeu o julgamento, e ambos os candidatos transformaram o episódio em arma eleitoral. Lula tenta se distanciar de Moraes e cobra transparência; Flávio Bolsonaro atribui ao presidente o desgaste do tribunal, embora as suspeitas também atinjam seu campo político.
Para o eleitor, o que importa é a apuração dos fatos sem proteção a autoridades, sem vazamentos seletivos e sem usar a Justiça como instrumento de campanha. A credibilidade do STF é parte da estabilidade democrática, mas a eleição não pode ser reduzida a quem explora melhor a crise.
Política externa e o combate ao crime organizado
Na Assembleia Geral da ONU, Lula advertiu contra a interferência estrangeira nas eleições e rejeitou uma atuação externa no combate ao crime organizado. Seus adversários contestam a condução das relações com os EUA e cobram uma resposta mais dura às facções. O PCC e o Comando Vermelho operam além-fronteiras, mas a pergunta prática é: como interromper o fluxo de drogas, dinheiro e armas e reduzir a violência nas ruas?
Bets, padroeira e o voto religioso
Lula passou a defender restrições às bets, depois de seu governo ter regulamentado o mercado de apostas. A proibição dos cassinos on-line exige explicações sobre contratos já autorizados, arrecadação e o atendimento a dependentes do jogo. A proximidade das urnas não dispensa uma política pública consistente.
Também escalou a disputa pelo voto religioso. Em torno de Nossa Senhora de Aparecida, Lula criticou o uso eleitoral dos púlpitos, e a aproximação de candidatos com igrejas voltou a provocar reações. O lugar das religiões na vida pública merece discussão, sem constranger a liberdade dos fiéis. Mas desaparecem as necessidades das comunidades: proteção contra a violência, cuidado com idosos, oportunidades para jovens e apoio a famílias em dificuldade.
O que o eleitor realmente prioriza?
Pesquisas mostram que o cotidiano pesa mais que a disputa entre personagens. No Datafolha de maio, saúde apareceu como prioridade para 34% dos entrevistados; educação, 15%; segurança, 12%; economia, 11%. No recorte BTG/Nexus de setembro, eleitores não alinhados aos dois polos citaram saúde (40%) e segurança (31%).
Numa eleição apertada, com Lula e Flávio tecnicamente empatados, essa distância é arriscada. Os eleitores querem saber quanto esperarão por uma consulta especializada, se haverá professor na escola, como voltarão do trabalho em segurança e se o salário chegará ao fim do mês. A crise institucional pode influenciar o voto, mas dificilmente eliminará essas cobranças.
Celina Mucavele, para o Maputo Agora