Fernando Lemos: A Arte Surrealista Como Arma Contra a Opressão
Num mundo de sombras e vultos, onde portas escondem perigos e manequins ganham vida sinistra, o fotógrafo luso-brasileiro Fernando Lemos encontrou uma forma de resistir à ditadura: o surrealismo. Entre 1949 e 1952, as suas imagens capturaram o terror do regime de Salazar em Portugal, mas também abriram caminho para a liberdade criativa. Agora, mais de 400 obras do artista, que morreu em 2019 aos 93 anos, estão reunidas na exposição Quanto Mais Desejo, Mais Invento O Que Vejo, no Instituto Moreira Salles, em São Paulo.
O que a exposição revela sobre o surrealismo de Lemos?
A mostra celebra o centenário do artista e inclui fotografias, pinturas, poemas e desenhos. Thyago Nogueira, curador da exposição, explica que Lemos dedicou a sua vida a pensar um vocabulário de liberdade.
Ele se dedicou a pensar um vocabulário da liberdade e a libertar a gente das repressões através da arte, afirma Nogueira.O surrealismo foi a ferramenta central desse processo, explorando o sonho e o inconsciente para desafiar a lógica imposta pela ditadura.
Como o artista usou a fotografia para criticar a censura?
Lemos criou imagens que criticavam a asfixia social do salazarismo sem despertar a atenção dos censores. Na obra Eu, Poeta, o artista aparece deitado com um emaranhado de fibra de vidro a envolver o rosto, acompanhado por uma carta de tarô e um punhal.
A foto remete ao enforcamento. É uma brincadeira com a tortura: não precisam me enforcar, já me enforquei, disse Lemos numa entrevista à revista Zum.A linguagem simbólica permitia-lhe navegar num contexto de repressão, mantendo a ambiguidade necessária para escapar à censura.
Porque é que os retratos de Lemos fogem ao convencional?
Nos retratos de artistas como Mário Cesariny e Hilda Hilst, Lemos evitava a nitidez típica do retratismo.
Naquele momento, o retrato estável, fixo, que revelasse a identidade, era visto como parte da repressão policial. Era a imagem do fichamento, diz Nogueira.Os retratados raramente olham para a câmara, aparecendo em múltiplas versões de si mesmos, graças à sobreposição de imagens. Para Lemos,
o retrato deve ser múltiplo, para dar mais vida à imagem.
Que papel teve o desenho na obra de Lemos?
Apesar de ser conhecido pela fotografia, Lemos fez do desenho a espinha dorsal do seu trabalho. Descoberto na infância em Lisboa, num período de pobreza e doença, o desenho evoluiu ao longo da sua carreira. Após se exilar no Brasil em 1953, os seus traços ganharam fluidez e erotismo, celebrando a liberdade recém-adquirida. Mas, com o golpe militar de 1964 no Brasil, Lemos voltou a usar a arte para confrontar a opressão, como na série Moto Continuum, que retrata objetos inúteis, como relógios sem ponteiros.
Qual é o legado de Fernando Lemos?
Fernando Lemos deixou um legado de resistência e criatividade, mostrando que a arte pode ser uma ferramenta poderosa contra a opressão.
Ele vinha de uma sociedade que tinha sido oprimida e reduzida. Quando chega ao Brasil e vê a coisa ficando esquisita, Lemos tem clareza de que precisamos lutar por esses pilares fundamentais, conclui Nogueira.A exposição Quanto Mais Desejo, Mais Invento O Que Vejo é um convite para descobrir como o surrealismo pode transformar a realidade e inspirar futuras gerações a valorizar a liberdade e a expressão artística.