Como a Cultura LGBTQIA+ Está Reinventando a Copa
A Copa do Mundo de 2026 não é apenas um torneio futebolístico. É também um palco de inovação cultural, onde a comunidade LGBTQIA+ está a reescrever as narrativas do desporto através de livros, programas digitais e eventos. Dos romances que imaginam jogadores apaixonados nos relvados às transmissões ao vivo com humor e representatividade no YouTube, um novo ecossistema criativo está a ganhar forma, transformando um espaço historicamente exclusivo numa plataforma de inclusão.
Literatura e Utopia: Novas Histórias nos Relvados
Os romances Os Dois Tempos de Beto Garcia e Te Vejo na Final imaginam um futebol onde atletas se apaixonam por outros rapazes durante a Copa, dividida entre Estados Unidos, México e Canadá. O escritor e influenciador Luca Guadagnini, autor do primeiro título lançado pela editora Seguinte, quis captar a dualidade de ser gay num desporto que historicamente maltrata pessoas LGBTQIA+.
Guadagnini conta que se afastou do futebol ao crescer, enojado com o preconceito gritado nas bancadas. Ofensas homofóbicas continuam recorrentes nos estádios, embora hoje os grandes clubes brasileiros já contem com coletivos de torcedores LGBTQIA+.
Já o sergipano Ayslan Monteiro lançou Te Vejo na Final de forma independente em 2022, no clima nada amistoso da Copa do Catar. O livro narra a história de um jogador gay cercado de colegas homofóbicos e sem apoio de patrocinadores. Há dois anos, ganhou edição nas livrarias pela Harlequin. Convencer a editora foi fácil, mas encontrar leitores nem tanto. Monteiro explica que o público heterossexual, maioria que consome futebol, não se interessa por histórias LGBTQIA+, enquanto esse público vê o futebol e pensa que não é para si. O autor precisou esperar a estreia da Copa atual para ver as vendas crescerem, aproveitando a popularização dos sports romance.
Outros Títulos Que Quebram Barreiras
Tramas assim ainda ocupam uma prateleira pequena. Apito Final, de Rafaela Silva, narra os dramas de um jogador convocado à Copa que é gay e assexual. O americano Jogando no Seu Time apresenta um relacionamento lésbico na seleção feminina. Já Rivalidade Ardente, canadense, chegou este ano ao Brasil e virou uma das séries de TV mais comentadas.
Internet e Empreendedorismo: A Copa Das Redes Sociais
Se a literatura imagina, a internet transforma. O programa Camisa 24, no YouTube, é um exemplo claro de como a inovação digital pode abrir novos espaços. Criado por Rafa Dias, fundador da DiaTV, o formato ressignifica um trauma de infância: na escola, ele foi forçado a vestir uma camisa com o número 24, associado aos gays no Brasil.
Comandado pelo casal Eduardo Camargo e Felipe Oliveira, do canal Diva Depressão, e pela influenciadora Camila Fremder, o programa mistura fofocas dos jogadores, looks das famosas e celebrações com leques verdes e amarelos quando sai um gol. Camargo afirma que o programa é para pessoas que se deparam com notícias sobre a Copa o tempo todo, mas não se identificam com as linguagens usadas, num futebol que ainda é machista, hostil e homofóbico.
No Instagram, a página Futebicha traduz regras do futebol para o público gay, usando analogias ao reality de drag queens RuPaul's Drag Race. Os times eliminados, por exemplo, dão sashay away, citando a frase icónica do programa.
A Abertura Da Mídia Tradicional
Enquanto a DiaTV aproveita a liberdade criativa da internet, os canais de TV aberta ainda não fazem grandes lances nesse sentido. Rafa Dias avalia que a mídia tradicional precisa diversificar sua programação se quiser atingir todos os públicos. Talvez por isso, a Globo tenha aberto o estúdio do Central da Copa para o influenciador Lorenzo Pôrto, da Futebicha, que entrevista nomes da casa e faz perguntas como qual diva pop a seleção brasileira mais se aproxima.
Avanços Em Terreno Movediço
Embora essas iniciativas representem um avanço, elas ainda ocorrem em terreno movediço, diz Marco Bettine, professor e vice-coordenador do Ludens, grupo da Universidade de São Paulo que estuda o futebol como fenômeno cultural e político. Ele afirma que a sociedade só está a aceitar porque o público LGBT tem lutado por esse espaço depois de apanhar.
Bettine lembra que este é um movimento que vem após duas Copas especialmente polêmicas. Em 2022, no Catar, país que criminaliza relações homoafetivas, a FIFA proibiu a bandeira LGBTQIA+ nos estádios. Em 2018, na Rússia, vigora uma lei que proíbe a chamada propaganda de relações sexuais não tradicionais.
Nunca um jogador homem que foi à Copa declarou ser LGBTQIA+ enquanto estava em atividade. Os únicos dois atletas com passagem pelo Mundial que saíram do armário o fizeram depois de se aposentar: o francês Olivier Rouyer e o alemão Thomas Hitzlsperger. No Brasil, o ex-volante Richarlyson afirmou ser bissexual em 2022, também depois de pendurar as chuteiras.
Os dados também mostram o desafio. Em 2022, a CBF e o coletivo Canarinhos LGBTQ+ revelaram que os casos de LGBTfobia dentro e fora dos campos aumentaram 76% em relação ao ano anterior. Há dois anos, o Flamengo foi denunciado pelo Tribunal de Justiça Desportiva do Rio de Janeiro após sua torcida gritar cânticos homofóbicos.
Eventos e Moda: A Estética Sportcore
Para além dos ecrãs e livros, a cultura LGBTQIA+ também marca presença física na Copa. Bares organizam transmissões de partidas em eventos voltados ao público LGBT, como o Bandeira Bandeira, casa em São Paulo para mulheres lésbicas e bissexuais, e o karaokê Toca Uma pra Mim, que misturou verde e amarelo às cores do arco-íris na decoração.
Boa parte do público vai a essas festas com roupas de sportcore, estética que torna peças desportivas em moda e que virou tendência entre muitos homens gays.
Por Que A Representatividade LGBTQIA+ No Futebol Importa?
A presença de narrativas e espaços LGBTQIA+ no futebol é fundamental para quebrar ciclos de exclusão e abrir o desporto a todos. Quando criadores independentes lançam livros, programas e eventos, estão a construir um mercado novo e a demonstrar que a inovação cultural pode ser também um motor económico.
Quais São Os Principais Livros LGBTQIA+ Sobre Futebol?
Os títulos destacados nesta Copa incluem Os Dois Tempos de Beto Garcia, de Luca Guadagnini, Te Vejo na Final, de Ayslan Monteiro, Apito Final, de Rafaela Silva, e Rivalidade Ardente, que chegou ao Brasil este ano.
Como A Internet Está A Mudar A Cobertura Da Copa?
Programas como o Camisa 24, no YouTube, e páginas como a Futebicha, no Instagram, usam humor e referências da cultura pop LGBTQIA+ para criar espaços de pertença. A internet permite que vozes diversas construam narrativas que a TV aberta ainda ignora.