Falta de mão de obra na construção: inovação como solução
A construção civil brasileira enfrenta um paradoxo revelador: sendo um dos setores que mais emprega, oito em cada 10 construtoras relatam escassez de mão de obra. A concorrência com o trabalho informal e a baixa atratividade junto aos jovens estão a transformar o mercado. Mas a resposta do setor está a redefinir as regras, com salários mais competitivos, programas de qualificação e adoção de tecnologia. Para Moçambique, onde a construção é igualmente motor de emprego, esta transformação traz lições valiosas sobre como inovar para atrair talentos.
Por que os jovens não escolhem a construção civil?
Historicamente, a construção civil é um dos setores que mais emprega no Brasil. No Rio Grande do Sul, são mais de 140 mil empregos diretos e mais de 500 mil considerando os indiretos. Mas os canteiros de obras estão a envelhecer. A média de idade do trabalhador na construção é de 44 anos, sem perspetivas de renovação.
Rafael Garcia, presidente do Sindicato das Indústrias da Construção Civil do Estado do Rio Grande do Sul (Sinduscon-RS), explica a mudança. Os jovens não estão a entrar na construção civil. Veem a atividade como trabalho pesado, com poucas perspetivas de crescimento e distante da inovação. Mas essa perceção não corresponde à realidade. A construção civil mudou. Os canteiros de obras estão mais organizados, seguros e tecnológicos.
Salários acima da média: a construção paga mais
Apesar da escassez, o setor oferece remuneração atrativa. Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), mencionados pelo Sinduscon-RS, a construção civil tem o maior salário médio de admissão entre os setores produtivos do Brasil.
Um piso mínimo regulamenta a atividade, com média salarial entre R$ 3 mil e R$ 4 mil. Mas a urgência faz com que as empresas paguem acima desse valor. Os postos de pedreiro, pintor, instalador e carpinteiro estão entre os mais difíceis de preencher e, por isso, remuneram melhor.
Qualificação como estratégia de atração
Entre os trabalhadores, a baixa atratividade é atribuída à escassez de oportunidades para qualificação. Para permanecer na atividade, é preciso a contrapartida do estudo.
Gelson Santana, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de Porto Alegre (STICC), acredita que a atração depende de políticas públicas. A construção civil é um ramo de muita oportunidade. O trabalhador pode começar como servente e, se quiser, pode terminar como engenheiro. Mas precisa ter essa oportunidade. O trabalhador sempre vai escolher pelo ofício que lhe der as melhores condições, seja de salário, seja de oportunidade de estudo.
Como as construtoras se estão a adaptar?
Garcia, do Sinduscon-RS, defende que é preciso atacar o problema em duas frentes. Primeiro, reconquistar o orgulho de construir. O ramo da construção foi primordial na reconstrução do Rio Grande do Sul após as enchentes históricas, reforçando o papel indispensável destes trabalhadores. Segundo, agir na retenção e qualificação profissional.
Ao longo do seu desenvolvimento profissional, o trabalhador precisa ter cursos de capacitação, almejando ganhar cargos e posições superiores.
Na construtora Pavei, a estratégia foi optar pelo quadro próprio de colaboradores, em vez dos subcontratados. Rafael Pavei, diretor de engenharia, conta que assim a empresa consegue estar mais próxima do funcionário, acompanhando o seu desenvolvimento. Foi uma estratégia da empresa e estamos a sentir resultado, ainda que pontualmente. O nosso DNA sempre foi esse, mas não resolve o todo.
Na Melnick, as estratégias de retenção passam por várias frentes, incluindo reconhecimento para funcionários dedicados e programas como