Combustível: risco de escassez de diesel preocupa importadores e setor agrícola
O mercado de combustíveis enfrenta um momento de tensão. Importadores alertam para o risco de falta de diesel no Brasil, com a defasagem entre os preços internos da Petrobras e as cotações internacionais atingindo 104% (ou R$ 2,87 por litro). O cenário, segundo especialistas, é economicamente inviável para os importadores e pode gerar problemas logísticos pontuais, especialmente no setor agrícola, que está em plena safra.
Por que o preço do diesel está defasado?
A defasagem ocorre quando o preço praticado pela Petrobras no mercado interno fica abaixo do valor internacional. Nesta semana, o percentual chegou a 104%, depois de ter atingido um recorde de 109% na sexta-feira anterior. Segundo Sergio Araujo, presidente da Abicom, a situação é preocupante:
“Em setembro já tivemos redução na importação de diesel em relação aos meses anteriores. Em agosto, houve sobra na oferta, com a soma da produção e da importação entre 1,2 milhão e 1,3 milhão de metros cúbicos. Agora, em outubro, quando o consumo é ainda maior, há risco de falta de diesel.”
Qual é o papel do governo e da Petrobras?
O governo brasileiro trabalha para finalizar uma portaria que regulamentará uma nova subvenção para o diesel. Na sexta-feira, foi publicada uma medida provisória que autoriza uma subvenção adicional de R$ 1 por litro. No entanto, ainda falta a regulamentação para que a medida entre em vigor. A expectativa é que mecanismos de subvenção ou compensação tributária possam reduzir as perdas dos importadores e estimular a entrada de carregamentos no país.
A Petrobras, que responde por cerca de 80% das importações de diesel, afirma que acompanha o cenário de oferta e demanda. Em nota, a estatal garantiu que, para setembro e outubro, está prevista a importação de diesel em volumes compatíveis com a demanda, considerando a sazonalidade típica do período, influenciada pelo escoamento das safras.
Como a guerra no Oriente Médio afeta o mercado?
A alta do petróleo e os problemas em refinarias, causados pela guerra no Oriente Médio, pressionam os preços internacionais. Ontem, o barril do tipo Brent chegou a superar os US$ 109, mas fechou em alta de 1,02%, a US$ 105,68, após declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, que disse que o Irã deseja “fazer rapidamente um acordo”. Trump também pressionou o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, a interromper os ataques com drones contra refinarias na Rússia, que têm reduzido a produção de combustíveis e contribuído para a escassez global de diesel.
O que dizem os especialistas?
Marcos Delia, da Leggio Consultoria, lembra que setembro e outubro são meses de maior consumo de diesel por causa da safra. Segundo ele, apesar de a programação de embarcações com diesel importado estar baixa, o cenário pode mudar, já que a Petrobras tem experiência na gestão desse período de demanda mais intensa.
“O que pode ocorrer são problemas logísticos pontuais em algumas regiões, principalmente envolvendo distribuidoras menores, mas não acredito em um cenário de falta de produto. As notícias relacionadas à guerra sempre trazem mais volatilidade e incerteza para o mercado.”
Para Pedro Rodrigues, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), quando a defasagem dos preços da Petrobras aumenta muito, a janela para importação se fecha:
“As empresas deixam de importar e tentam comprar o produto diretamente das refinarias da Petrobras por meio das cotas. O governo não vai deixar faltar diesel, mas o sistema fica mais pressionado.”
Setor agrícola já sente os efeitos
No Rio Grande do Sul, a Federação da Agricultura do estado (Farsul) encaminhou cartas ao Ministério de Minas e Energia e à Agência Nacional de Petróleo (ANP) manifestando preocupação diante de relatos de restrições e atrasos na entrega de diesel a produtores rurais, justamente no início do plantio da safra de verão. A entidade alerta que a falta de combustível pode atrasar a implantação das culturas, reduzir a área plantada e comprometer a produtividade.
“Estamos com suboferta do diesel S500 no estado”, afirma Domingos Velho Lopes, presidente da entidade, sobre compras no mercado à vista. Em nota, a ANP disse que, em contatos com a Petrobras e distribuidores que atuam no estado, os agentes informaram que as entregas ocorrem normalmente.
Perguntas frequentes sobre o mercado de diesel
O que é a defasagem do preço do diesel?
É a diferença entre o preço praticado pela Petrobras no mercado interno e as cotações internacionais. Quando a defasagem é alta, os importadores perdem dinheiro e reduzem as compras, o que pode levar à escassez do produto.
Como a guerra no Oriente Médio afeta o preço do diesel?
A guerra pressiona os preços internacionais do petróleo, aumentando o custo de importação do diesel. Além disso, ataques a refinarias na Rússia reduzem a produção global de combustíveis, contribuindo para a escassez e a alta dos preços.
O que o governo está fazendo para evitar a falta de diesel?
O governo publicou uma medida provisória que autoriza uma subvenção adicional de R$ 1 por litro de diesel. No entanto, a medida ainda precisa ser regulamentada para entrar em vigor. A expectativa é que a subvenção reduza as perdas dos importadores e estimule a entrada de carregamentos no país.