A cirurgia à anca com colocação de prótese dura cerca de hora e meia, mas são as primeiras seis semanas de recuperação que determinam boa parte do resultado final, segundo um guia de saúde publicado pelo SAPO a 14 de outubro de 2026. A informação chega num momento em que o acesso a cuidados ortopédicos de qualidade é uma preocupação crescente também em Moçambique, onde o envelhecimento da população e o aumento de acidentes de viação elevam a procura por este tipo de intervenção.
A prótese da anca é descrita como uma das cirurgias com melhor resultado em toda a medicina: elimina a dor em quem já não dormia por causa dela e devolve autonomia. O resultado final, contudo, depende menos das 90 minutos de bloco operatório e mais dos cuidados das semanas seguintes.
Os primeiros dias: levantar-se cedo protege a saúde
Na maioria dos casos, o paciente levanta-se no próprio dia da operação ou no dia seguinte, com apoio de fisioterapia e de um andarilho ou canadianas. Não se trata de pressa: levantar cedo reduz o risco de trombose, pneumonia e confusão mental. O internamento dura entre dois e cinco dias, conforme a técnica usada, a idade do doente e as condições em casa.
As primeiras seis semanas: o período que exige mais cuidado
É nesta fase que a cápsula da articulação está a cicatrizar e que o risco de luxação da prótese é maior. O cirurgião indica restrições próprias, conforme a via cirúrgica utilizada, que devem ser seguidas à letra. Na abordagem posterior, as mais habituais são:
- não dobrar a anca mais de 90 graus, o que exclui cadeiras baixas e sofás fundos;
- não cruzar as pernas nem levar o pé para lá da linha média;
- não rodar o pé para dentro;
- não baixar-se para apanhar coisas do chão.
Utensílios simples resolvem quase tudo: uma pinça de cabo longo, uma calçadeira comprida, meias-elásticas e uma esponja de cabo comprido para o banho.
Como preparar a casa antes da cirurgia
Segundo o SAPO, é a parte que mais diferença faz e a que mais se esquece. Antes da operação, convém garantir:
- um alteador de sanita e barras de apoio na casa de banho;
- uma cadeira firme e alta, com braços, para as refeições;
- tapetes soltos retirados e fios elétricos arrumados;
- objetos de uso diário colocados à altura da cintura, para não ser preciso subir nem baixar;
- uma cama a uma altura que permita sentar com os pés no chão.
Estas adaptações são acessíveis e podem ser feitas com materiais encontráveis em qualquer mercado local. Em Moçambique, onde muitas famílias cuidam de idosos em casa, esta preparação pode significar a diferença entre uma recuperação tranquila e uma recaída com internamento.
Semanas seis a doze: quando a confiança pode custar caro
Entre a sexta e a décima segunda semana, as restrições começam a ser levantadas e a marcha melhora muito. É também a fase em que se cometem erros por excesso de confiança: a dor já desapareceu, mas a musculatura ainda não recuperou.
A fisioterapia mantém-se essencial. O objetivo passa a ser ganhar força no glúteo e no quadríceps, porque é isso que devolve equilíbrio e evita coxear para o resto da vida. Investir em serviços de reabilitação acessíveis é, por isso, uma aposta económica e social sensata, sobretudo num país com poucos fisioterapeutas por habitante.
Conduzir, viajar e voltar à vida normal
A condução costuma ser autorizada entre a quarta e a sexta semana em carro automático, e um pouco mais tarde em carro de caixa manual. A decisão depende de o paciente conseguir travar em emergência sem hesitar.
Viagens longas de avião nos primeiros dois meses devem ser discutidas com o médico, por causa do risco de trombose. Nadar só depois da cicatrização completa da ferida.
Sinais de alerta que exigem chamada imediata
Alguns sinais não esperam pela consulta marcada:
- febre;
- vermelhidão crescente ou corrimento na ferida;
- dor súbita e intensa;
- perna que encurta ou roda para fora;
- inchaço doloroso da barriga da perna.
A dor que é normal e a que não devia existir
É normal haver desconforto na coxa e na virilha durante semanas, sobretudo ao fim do dia e depois de caminhadas mais longas. Também é normal sentir a cicatriz dormente à volta, e essa dormência pode durar meses.
O que não é normal é a dor aumentar em vez de diminuir ao longo das semanas, ou reaparecer depois de já ter passado. Nesses casos, a avaliação médica deve ser antecipada, e não empurrada para a consulta dos três meses.
Dentista e antibióticos: uma precaução pouco conhecida
Quem tem uma prótese articular deve informar sempre o dentista antes de qualquer intervenção. Em determinadas situações, é indicada profilaxia com antibiótico para reduzir o risco de infeção da prótese por bactérias que passam para o sangue. É uma precaução simples e que muita gente desconhece.
Para quem acompanha a recuperação de um familiar, estas orientações mostram que a cirurgia é apenas o primeiro passo. O resto constrói-se em casa, com preparação, fisioterapia e atenção aos sinais do corpo. Informação clara como esta, disponível a todos, é uma ferramenta de saúde pública que vale a pena partilhar.
Perguntas frequentes sobre a recuperação da cirurgia à anca
Quando é que o paciente se levanta após a cirurgia à anca?
Na maioria dos casos, no próprio dia ou no dia seguinte, com apoio de fisioterapia e de andarilho ou canadianas. Levantar cedo reduz o risco de trombose, pneumonia e confusão.
Quanto tempo dura o internamento após a colocação de prótese da anca?
Entre dois e cinco dias, conforme a técnica cirúrgica, a idade do doente e as condições em casa.
Quando se pode voltar a conduzir depois da cirurgia à anca?
Geralmente entre a quarta e a sexta semana em carro automático, e um pouco mais tarde em caixa manual, desde que o paciente consiga travar em emergência sem hesitar.



