A promoção da cultura em Moçambique continua dominada por lóbis, amizades e interesses pessoais, em vez de responder a um critério artístico ou património real, segundo uma opinião publicada esta semana pelo jornal 302 Found, que acusa o sistema de transformar a identidade nacional numa caricatura ao serviço de figuras escolhidas pelos círculos de influência.
O texto, intitulado “A cultura não pode continuar refém dos oportunistas”, chega num momento particularmente simbólico: o país celebra cinquenta anos de independência e o autor argumenta que, meio século depois, Moçambique ainda confunde promoção cultural com promoção de indivíduos.
O diagnóstico: egos acima do património
A crítica é frontal. Segundo o 302 Found, fazer cultura tornou-se uma espécie de profissão para indivíduos cujo objectivo principal é a promoção dos próprios egos, enquanto o património cultural, o termo mais correcto quando se fala da identidade de um povo, permanece ignorado.
“Não é um espectáculo de jazz, um músico bem vestido ou um indivíduo que fala correctamente uma língua europeia que determina a riqueza cultural de uma nação”, escreve o autor. A argumentação é clara: o país insiste em apresentar ao visitante estrangeiro aquilo que determinados círculos decidiram que deve representar Moçambique, deixando de lado quem vive, pratica e transmite as tradições no dia a dia.
Cinquenta anos de independência, padrinhos intactos
O texto sublinha que, durante cinco décadas de independência, fomos assistindo à promoção de figuras que dependem mais das amizades com quem ocupa determinadas cadeiras do que do seu contributo efectivo para o património cultural moçambicano.
“Quando Moçambique deixar de ser guiado por padrinhos, amigos, companheiros e colegas de escola, talvez possamos começar a construir uma política cultural digna desse nome”, lê-se na opinião. O património, acrescenta, não pode continuar dependente do “camarada chefe” nem das “notinhas que alguém decide gastar para promover o amigo ou o filho do amigo”.
Num país jovem, onde mais de metade da população tem menos de 25 anos, o argumento ressoa de forma especial. A nova geração de criadores moçambicanos raramente encontra espaço nos festivais e eventos oficiais, frequentemente reservados a nomes já consagrados pelas redes de influência.
Porque a questão é de transparência, não de gosto musical
Importa notar que a crítica não é dirigida aos estilos musicais importados em si. O autor reconhece que o jazz, o hip-hop, o rap, o R&B, o blues e o rock têm raízes profundamente ligadas à história africana. O problema está em transformar essas expressões nos únicos instrumentos de representação cultural do país, enquanto os verdadeiros criadores permanecem esquecidos.
A questão colocada é, no fundo, uma questão de governação e de transparência: quem decide o que representa Moçambique culturalmente, e com base em que critérios? A resposta, sugere o texto, passa por deixar a própria sociedade participar na definição dos seus representantes culturais e por levar os festivais mais a sério, acabando com o que descreve como “palhaçadas que apenas servem para alimentar vaidades”.
O debate sobre políticas culturais atravessa o Atlântico
O debate moçambicano não é um caso isolado. Em outros países, a discussão sobre quem financia e quem decide na cultura tem ganho urgência. No Brasil, segundo o projeto jornalístico Colabora, a cultura viveu anos de incerteza após vetos integrais a leis de fomento, como a Paulo Gustavo e a Aldir Blanc, que previam milhares de milhões para o setor.
Também a questão do formato e da mediação tecnológica está na ordem do dia. Uma análise publicada na Substack sobre política cultural alerta que “a cultura não pode ficar refém do algoritmo” e que a arte não pode ser obrigada a caber em formatos cada vez mais curtos e descartáveis. Em Moçambique, o desafio é duplo: a cultura está refém ao mesmo tempo dos privilégios internos e de modelos externos mal digeridos.
O que muda numa economia aberta e digital
Para uma geração de jovens empreendedores moçambicanos que investem em música, moda, cinema e design, a mensagem do 302 Found toca num ponto sensível do ecossistema criativo. Sem critérios públicos claros, o financiamento cultural segue a lógica do favor e não a lógica do mérito, o que desincentiva o investimento privado e afasta talentos.
Uma política cultural moderna exigiria editais transparentes, júris independentes e mecanismos de financiamento acessíveis a quem está fora dos círculos de poder. Países africanos que conseguiram valorizar o seu património, nota o texto, foram precisamente aqueles cujos promotores se distanciaram do oportunismo criado pelos sistemas de governação.
“Moçambique já tem cinquenta anos. Já não é nenhuma criança”, escreve o autor. “Não podemos continuar a responsabilizar o exterior pelas catanadas culturais que nós próprios damos ao país.”
FAQ
Qual é a principal crítica do 302 Found à política cultural moçambicana?
O jornal argumenta que a promoção cultural em Moçambique depende de padrinhos, amizades e influências, beneficiando figuras escolhidas pelos círculos de poder em vez de quem contribui efectivamente para o património cultural.
Quem deve definir os representantes culturais do país?
Segundo o texto, a própria sociedade deve participar na definição dos seus representantes culturais, com festivais levados a sério e critérios transparentes em vez de favores pessoais.
O artigo é contra estilos musicais como jazz ou hip-hop?
Não. O autor reconhece as raízes africanas desses estilos, mas critica a sua imposição como únicos instrumentos de representação cultural de Moçambique.
