O Presidente moçambicano, Daniel Chapo, admitiu esta sexta-feira, 24 de outubro, na Etiópia, que terroristas continuam a realizar ataques esporádicos em Cabo Delgado, afirmando que o maior desafio do momento é a assistência humanitária às populações deslocadas.
Falando no 12.º Fórum de Alto Nível de Tana sobre Segurança em África, que decorre de 23 a 25 de outubro em Bahir Dar, o chefe de Estado pediu aposta no multilateralismo para travar o extremismo violento e defendeu reformas no Conselho de Segurança das Nações Unidas, incluindo um assento permanente para África, segundo a reportagem do Notícias ao Minuto.
Que situação vive Cabo Delgado?
Chapo traçou um balanço com sinais positivos, mas sem triunfalismo. Recordou que, no início da insurgência, os grupos armados tinham ocupado vilas no norte da província e que hoje essas localidades estão livres, graças à ação combinada das forças moçambicanas e dos parceiros.
Os ataques esporádicos, porém, continuam a provocar deslocações de população, reconheceu o Presidente no fórum, realizado sob o lema «Caminhos para a Paz em África: Soberania Económica e Transformação Geopolítica», com Chefes de Estado e de Governo, decisores políticos, académicos e parceiros de desenvolvimento.
«O maior desafio que nós temos no momento é assistir, assistência humanitária às populações. A situação está relativamente melhor do que estava antes. Continuamos atentos às investidas dos terroristas, as nossas forças armadas, junto às forças amigas do Ruanda, da Tanzânia e a força local, continuam a combater o terrorismo», disse Chapo, citado pelo Notícias ao Minuto.
Um conflito com números pesados
Cabo Delgado enfrenta desde outubro de 2017 uma insurgência armada associada a grupos extremistas ligados ao Estado Islâmico. O conflito já provocou cerca de 6.600 mortos, segundo dados de organizações internacionais citados pelo Notícias ao Minuto.
Atualmente, cerca de 1,38 milhões de pessoas continuam afetadas pelo conflito, incluindo aproximadamente 662 mil deslocados internos e 722 mil habitantes que já regressaram às zonas de origem, conforme dados das Nações Unidas. O número de deslocados já foi superior a 1,2 milhões.
«Por detrás destes números estão famílias repetidamente forçadas a abandonar as suas casas, crianças cuja educação foi interrompida e comunidades cujos meios de subsistência e acesso a serviços básicos foram destruídos», refere um relatório das Nações Unidas.
Para uma geração jovem que quer trabalhar, estudar e empreender, estas cifras mostram o custo real da insegurança: escolas fechadas, negócios parados e comunidades inteiras privadas do essencial. A paz é a primeira infraestrutura de qualquer economia.
Cooperação regional: a aposta que funciona
Chapo destacou o papel determinante dos parceiros africanos no combate ao extremismo. Moçambique contou desde o princípio com o apoio da Missão da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral em Moçambique (SAMIM) e das forças do Ruanda, que agora operam num modelo de cooperação bilateral.
As forças da Tanzânia continuam a guarnecer a fronteira com Moçambique, no quadro de acordos bilaterais, para impedir a circulação dos terroristas. Recentemente, três supostos terroristas foram abatidos por fuzileiros em Mocímboa da Praia, conforme noticiou o Observador.
«A nossa experiência, um dos segredos do sucesso para o combate ao terrorismo em África é a união entre os países africanos», disse Chapo.
«Uma união regional da SADC, mas também podemos encontrar problemas africanos, soluções africanas, neste caso uma solução bilateral entre Moçambique e Ruanda e depois temos também uma união entre dois países, neste caso Moçambique e Tanzânia, que as forças tanzanianas ao longo da fronteira de Moçambique continuam a fazer um bom trabalho para o bloqueio da entrada de terroristas em Moçambique», acrescentou.
O Presidente defendeu ainda que a segurança e a paz são essenciais para o desenvolvimento sustentável dos países africanos e agradeceu os esforços de todos os países que apoiam Moçambique na luta contra o extremismo. Numa linha semelhante, o Jornal Oeconomico noticiou que Chapo colocou a paz e a inclusão económica no centro da independência económica do país, com ações de prevenção da radicalização, assistência humanitária e reintegração comunitária.
Reforma do Conselho de Segurança da ONU
O momento mais diplomático do discurso foi o apelo à reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Chapo criticou o facto de a África não ter membros permanentes no órgão e defendeu que chegou a altura de encontrar uma solução africana para o terrorismo, sobretudo no quadro da União Africana.
«E esta reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas tem que encontrar espaço para que a África tenha assento e também tenha o direito do veto. Porque enquanto continuarmos a falar de segurança em África, ao nível do Conselho de Segurança das Nações Unidas, sem um membro permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas (...) vai ser muito difícil resolver a questão da segurança do continente africano», defendeu.
O argumento é simples e poderoso: quem vive os problemas deve ter voz nas decisões. Um continente com 1,4 mil milhões de pessoas sem representação permanente no principal órgão de segurança mundial é uma anomalia que Moçambique quer ver corrigida.
O que significa isto para Moçambique?
A mensagem de Chapo em Bahir Dar combina realismo e confiança. As vilas ocupadas estão livres, a situação humanitária melhorou face ao pior momento da crise e a cooperação com Ruanda e Tanzânia mantém-se ativa. Mas o Presidente evitou declarar vitória: os ataques esporádicos continuam e 662 mil deslocados ainda aguardam condições seguras para voltar a casa.
Para o Governo, o desafio duplo é claro: manter a pressão militar sobre os grupos armados e, ao mesmo tempo, reconstruir escolas, hospitais e meios de subsistência no norte do país. Só assim o regresso de 722 mil pessoas se tornará definitivo e Cabo Delgado poderá voltar a ser motor económico, e não manchete de conflito.
Perguntas frequentes
Quantas pessoas estão afetadas pelo conflito em Cabo Delgado?
Cerca de 1,38 milhões, incluindo aproximadamente 662 mil deslocados internos e 722 mil pessoas que já regressaram às zonas de origem, segundo dados das Nações Unidas.
Desde quando existe a insurgência em Cabo Delgado?
Desde outubro de 2017, quando começaram os ataques de grupos extremistas ligados ao Estado Islâmico. O conflito já causou cerca de 6.600 mortos.
Que países apoiam Moçambique no combate ao terrorismo?
O Ruanda, no quadro de cooperação bilateral, e a Tanzânia, que guarniciona a fronteira. Anteriormente, Moçambique contou com a missão SAMIM da SADC.
