Como pequenas gestoras estão democratizando o crédito para médias empresas
Uma revolução silenciosa está a transformar o mercado de crédito empresarial. Enquanto grandes bancos reduzem o apetite por operações especializadas, pequenas gestoras regionais aproveitam esta oportunidade para oferecer soluções inovadoras e personalizadas através de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs).
A democratização do acesso ao crédito
Esta transformação é impulsionada por uma combinação poderosa: a rigidez dos grandes bancos, a necessidade empresarial por soluções customizadas e a atratividade das taxas do crédito privado para investidores num cenário de juros elevados.
Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, explica que os bancos apostam em produtos padronizados para ganhar escala, ignorando as necessidades específicas do mercado médio. "É mais fácil para a instituição financeira criar um produto e fazer com que as empresas o consumam do que criar algo customizado, cliente a cliente", afirma.
Dados revelam oportunidades no mercado
O relatório Panorama PME de 2025 da Serasa Experian mostra que o Indicador de Condições de Crédito registou -0,18 ponto no segundo semestre, significando que "apesar da expansão nominal do crédito, as condições para obtê-lo seguem desfavoráveis".
A Azumi já soma 77 FIDCs focados em médias e grandes empresas, com 3 mil milhões de reais sob gestão. Richard Ionescu, CEO do Grupo IOX, com carteira próxima aos 3 mil milhões, reforça que os bancos "esqueceram um pouco o middle porque o segmento dá trabalho e não oferece o retorno de escala que eles buscam".
Proximidade e tecnologia como vantagens competitivas
Pedro Da Matta, CEO da Audax Capital, destaca que as boutiques vencem pela proximidade e tecnologia. "Somos mais próximos dos clientes do que os bancos, conseguimos ofertar produtos cada vez mais especializados porque temos uma proximidade muito grande", avalia.
Desafios da operação no mercado médio
Atuar no mercado médio exige uma operação de "trincheira". O principal obstáculo é a desorganização financeira das empresas. "O middle não tem uma governança clara, um balanço auditado", relata Da Matta. "Mistura sempre o caixa da pessoa física com o da pessoa jurídica".
Para contornar esta falta de confiabilidade contábil, as gestoras apostam no histórico de pagamentos e cruzamento de dados de mercado, limitando o crédito a operações até 36 meses.
Expansão regional como estratégia
Para ganhar capilaridade e fugir da concorrência acirrada dos grandes centros, as boutiques apostam em presença regional. Ionescu expandiu do centro de São Paulo para o interior paulista e outros estados.
Da Matta vê a atuação fora do centro financeiro como vantagem: "Não temos nenhuma dificuldade em estar fora da Faria Lima. Isso traz prestígio maior, por não estarmos ouvindo todo aquele ruído". Esta distância ajuda a reter mão de obra qualificada.
Futuro do mercado: consolidação ou pulverização?
Os executivos dividem-se sobre o futuro estrutural. Da Matta acredita na consolidação a médio prazo: "Quando a Selic der uma recuada mais forte, a tendência é que grandes players adquiram essas casas menores".
Ionescu discorda e aposta na manutenção da pulverização, enquanto Araújo foca na janela actual de crescimento acelerado antes que as grandes instituições reajam.
Esta revolução no crédito empresarial representa uma oportunidade única para democratizar o acesso ao financiamento, promovendo o empreendedorismo e a inovação no tecido empresarial.