Bancos alertam: novas regras do FGTS prejudicam trabalhadores e reduzem acesso ao crédito
Uma pesquisa da AtlasIntel revela que as recentes limitações ao saque aniversário do FGTS estão a causar forte impacto negativo no mercado de crédito brasileiro, com consequências diretas para milhões de trabalhadores que dependem desta modalidade de financiamento.
Impacto dramático no volume de empréstimos
As medidas implementadas em novembro de 2025 provocaram uma redução imediata de 80% no volume de empréstimos garantidos pelo FGTS. Segundo Alex Gonçalves, diretor técnico da Associação Brasileira dos Bancos (ABBC), esta queda pode atingir 96% até o final de 2027, levando ao fim desta modalidade de crédito.
Os dados mostram uma transformação radical no mercado: os empréstimos que chegavam a R$ 3 bilhões mensais até outubro de 2025 caíram para apenas R$ 600 milhões em novembro, após a entrada em vigor das novas regras.
Trabalhadores rejeitam mudanças
O levantamento da AtlasIntel, realizado com 4.243 participantes, demonstra clara oposição às alterações. 65,7% dos trabalhadores que conhecem a modalidade consideram que as novas regras os prejudicam, enquanto 86,96% dos que já utilizaram a linha de crédito opõem-se ao fim da antecipação do saque aniversário.
As principais mudanças incluem:
- Carência de 90 dias entre a opção pelo saque e a operação de antecipação
- Limitação a cinco parcelas anuais até outubro de 2026 e três depois
- Uma operação por trabalhador
- Prestações entre R$ 100 e R$ 500
Uso responsável contradiz preocupações governamentais
Contrariando as preocupações do governo sobre apostas online, a pesquisa revelou que zero por cento dos entrevistados utilizou os recursos para jogos de azar. Na realidade, 59% dos trabalhadores usam o dinheiro para pagar dívidas urgentes ou mais caras, 19,9% para despesas de saúde e medicamentos, e 11% para bens de uso pessoal.
"Os brasileiros não usam o dinheiro do saque aniversário para fazer apostas", afirma Ricardo Barbosa, economista-chefe da Zetta, destacando o uso responsável dos recursos pelos trabalhadores.
Alternativas limitadas e mais caras
A ABBC alerta que apenas 49 milhões dos 134 milhões de trabalhadores com conta ativa do FGTS têm acesso ao consignado privado, deixando 85 milhões de trabalhadores sem opções de crédito acessível.
O custo também é um fator crucial: enquanto a antecipação do FGTS cobra 1,79% ao mês, o consignado privado atinge 3,79%. Para quem não tem acesso ao consignado, as opções são ainda mais onerosas, chegando a 19,95% mensais para negativados.
Impacto económico preocupante
Segundo cálculos da ABBC e da Zetta, o fim da linha do saque aniversário terá um impacto negativo de R$ 35 bilhões na economia, superior ao efeito positivo da redução do imposto de renda (R$ 32 bilhões) e afetará mais trabalhadores.
A medida impacta diretamente 28 milhões de trabalhadores que já utilizaram o crédito para antecipação, comparado aos 16 milhões beneficiados pela redução do imposto de renda.
Setor financeiro busca reversão
As associações do setor financeiro mantêm diálogo com o governo para reverter as limitações, argumentando que a medida inviabiliza uma linha de crédito essencial para trabalhadores de menor renda. O governo demonstrou surpresa com o impacto do piso de R$ 100 nas prestações, que foi responsável por 78 pontos percentuais da queda nas operações.
Esta situação exemplifica os desafios das reformas no mercado financeiro brasileiro, onde o equilíbrio entre proteção ao consumidor e acesso ao crédito continua a ser um tema central para o desenvolvimento económico sustentável.