Aliança no Ceará: PL apoia Ciro Gomes e expõe racha com Michelle Bolsonaro
O Partido Liberal (PL) do Ceará anunciou, nesta quinta-feira, apoio à candidatura do ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) ao governo estadual. A decisão ocorre após uma polêmica pública entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sobre os rumos da legenda no estado. Enquanto Michelle defende apoio ao senador Eduardo Girão (Novo-CE), Flávio prefere Ciro, gerando um racha interno que expõe as tensões na direita brasileira.
O que motivou o apoio do PL a Ciro Gomes?
Em vídeo publicado nas redes sociais, Ciro agradeceu a aliança e destacou que ela representa um exemplo de superação de diferenças. “Acabo de receber a notícia, muito feliz e profundamente honrado, de que a convenção estadual do PL acaba de homologar o apoio do partido à nossa candidatura ao governo do Estado do Ceará”, afirmou. “Eu quero agradecer a todos os convencionais, a todos os membros, a todos os filiados do PL pela confiança e pela decisão de caminhar conosco nessa luta aqui no Ceará.”
Ciro é o principal adversário do governador Elmano de Freitas (PT-CE), que busca a reeleição. A chapa petista inclui o irmão de Ciro, Cid Gomes (PSB-CE), como candidato ao Senado, aprofundando a ruptura entre os irmãos após o fim da aliança de 16 anos entre PT e PDT no estado, em 2022.
Críticas de Ciro ao governo do PT no Ceará
De acordo com Ciro, o governo do PT abandonou o estado. “Nosso estado está passando por um momento muito grave. Nos últimos 12 anos, o Ceará viu disparar a violência e a corrupção. O governo do estado abandonou o nosso povo. Esse problema pede que sejamos capazes, como o PL está demonstrando de forma exemplar, de colocar de lado nossas diferenças”, declarou.
Ele elogiou o presidente do PL no Ceará, deputado André Fernandes, e o deputado Alcides Fernandes (PL-CE), que deve compor a chapa como candidato ao Senado. “Eu preciso agradecer em especial ao deputado André Fernandes, esse jovem talento que a política do Ceará produziu, e ao nosso futuro senador Alcides Fernandes. Alcides é dessas pessoas que, quando você conhece de perto, você se apaixona, e eu não estou exagerando”, frisou.
O que está por trás do racha entre Michelle e Flávio Bolsonaro?
A decisão do PL do Ceará vem um mês após a publicação de um vídeo em que Michelle expõe a briga com o enteado. Segundo a ex-primeira-dama, Flávio a “desrespeitou, humilhou e maltratou” por causa das divergências políticas. No vídeo, Michelle citou ofensas de Ciro a Jair Bolsonaro: “Ciro Gomes foi o principal responsável pelo processo que levou à inelegibilidade do meu marido durante a pandemia. Numa live com outros esquerdistas, ele incentivou e conclamou as pessoas a chamarem o meu marido de genocida e pediu que repetissem isso o tempo todo.”
Ela acrescentou: “Ele disse que Bolsonaro roubava a gasolina. Disse que as esposas de Bolsonaro seriam todas ladras. Disse que os filhos do meu marido, os meus enteados, eram corruptos, que eram ladrões, e deu a eles um apelido: ovos de serpentes nazistoides.”
Nesta quinta-feira, Flávio publicou um vídeo pedindo desculpas a Michelle e afirmou que a briga está sendo usada por adversários políticos para descredibilizar sua candidatura. Horas depois, a ex-primeira-dama também em vídeo disse perdoar o enteado.
Qual a estratégia política do PL no Ceará?
Para Henrique Hellas, cientista político da assessoria Continuum Private, o grande objetivo do PL é concentrar forças no candidato com maior capacidade de impedir a reeleição de Elmano. “Não diria que uma aliança estadual é circunstancial, olhando a estratégia do PL, a prioridade imediata é fortalecer o candidato mais competitivo para derrotar Elmano”, acredita.
Hellas entende que a estratégia é mais ampla. “O PL participa de uma coalizão de centro e direita, ganha espaço na chapa majoritária, especialmente com Alcides Fernandes para o Senado, e amplia o palanque para seus candidatos à Câmara e à Assembleia. Portanto, não se trata apenas de eleger Ciro, mas de aumentar a representação política da oposição em diferentes níveis. É uma convergência eleitoral e institucional, muito mais do que um alinhamento ideológico permanente”, analisa.
De acordo com Hellas, a posição de Michelle pode influenciar o eleitorado no Ceará. “Michelle possui influência direta sobre a militância bolsonarista e já declarou apoio público a Girão. Isso pode reduzir o entusiasmo da base, gerar voto dividido e dificultar a transferência automática de votos do PL para Ciro”, avalia.
Já para Murilo Medeiros, cientista político da Universidade de Brasília (UnB), a discordância não prejudicará a mobilização da base. “Apesar das divergências internas, o eleitor bolsonarista tende a enxergar a disputa estadual dentro de uma estratégia maior de enfrentamento ao PT”, avalia.