A Ucrânia está a avançar com planos concretos para desenvolver alternativas europeias aos sistemas de defesa aérea norte-americanos e às comunicações por satélite Starlink, revelou esta sexta-feira, 16 de outubro, o canal euronews, numa altura em que as tensões entre Kiev e Washington obrigam a Europa a repensar a sua autonomia tecnológica e militar.
A informação foi avançada por Ihor Zhovkva, chefe-adjunto do gabinete do presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy, numa entrevista exclusiva ao programa Europe Today, realizada antes da cimeira da União Europeia em Bruxelas. Zhovkva garantiu que as discussões já saíram do papel e que os prazos serão muito mais curtos do que os céticos imaginam.
Dependência americana em causa
«Estamos, naturalmente, a contar com as capacidades únicas fornecidas pelos Estados Unidos, seja em sistemas de defesa aérea ou em Starlink», reconheceu Zhovkva, citado pela euronews.
«Mas a Ucrânia já iniciou discussões substanciais com países europeus sobre um sistema europeu de defesa aérea», acrescentou.
O responsável presidencial apontou o FREYJA, um programa europeu de mísseis antibalísticos lançado em Paris em julho, como exemplo do caminho a seguir. As conversações, segundo Zhovkva, já evoluíram para contactos diretos entre empresas de defesa dos dois lados.
«Precisamos de um equivalente europeu de um sistema de defesa aérea», afirmou, sublinhando que a Ucrânia pretende assumir um papel de liderança no desenvolvimento dessa capacidade.
Uma resposta europeia ao Starlink
Paralelamente, Kiev conduz negociações para criar uma alternativa europeia ao Starlink, o serviço de internet por satélite da empresa de Elon Musk que se tornou essencial para as comunicações militares e civis ucranianas desde o início da invasão russa em 2022.
«Os países europeus devem ter o seu próprio sistema correspondente», disse Zhovkva, sem revelar mais pormenores sobre as negociações em curso.
Para o responsável ucraniano, ambos os projetos são essenciais não apenas para a defesa do seu país, mas também para a segurança mais ampla do continente europeu. A lógica é simples: quem depende de tecnologia estrangeira para se defender não controla totalmente a sua própria segurança.
Quanto tempo vai demorar?
Questionado sobre se o desenvolvimento destes sistemas demoraria demasiado tempo, Zhovkva afastou as preocupações com uma resposta assertiva.
«Temos um calendário e prazos claros», afirmou. «Será muito mais rápido do que dez ou quinze anos, e ainda mais rápido do que cinco.»
O responsável recusou, no entanto, indicar uma data específica, o que deixa em aberto a velocidade real desta transição tecnológica.
Pressão crescente sobre a Europa
Os planos ucranianos surgem num contexto de deterioração das relações entre Kiev e Washington. O presidente norte-americano Donald Trump tem pressionado a Ucrânia a suspender ataques contra infraestruturas petrolíferas russas, e as dúvidas sobre a fiabilidade do apoio militar americano têm aumentado.
Entretanto, a Rússia intensificou a sua campanha aérea contra a Ucrânia, com novos ataques a infraestruturas energéticas a alimentar receios de mais um inverno difícil para a população civil.
Zhovkva afirmou que garantir sistemas adicionais de defesa aérea e mísseis interceptores, juntamente com medidas para proteger as infraestruturas energéticas, estará entre as principais prioridades de Zelenskyy na cimeira da UE de Bruxelas.
«Todos os países que possam prestar esse tipo de ajuda, seja em sistemas ou em mísseis, devem fazê-lo», declarou, acrescentando que os que não podem fornecer equipamento devem contribuir financeiramente.
Financiamento e garantias de segurança
Zhovkva reconheceu, segundo a euronews, que apesar das contribuições significativas de países como a Alemanha, o apoio europeu continua aquém das necessidades ucranianas. Com Kiev a enfrentar um novo défice de financiamento no próximo ano, o responsável sublinhou a importância de manter os compromissos militares já assumidos e de garantir apoio financeiro adicional da Europa.
Sobre o futuro arranjo de segurança de longo prazo, Zhovkva defendeu que as garantias europeias devem constituir a base, identificando o apoio continuado às forças armadas, a produção conjunta de defesa e a adesão à UE como elementos essenciais.
«O alicerce das garantias de segurança para a Ucrânia é um exército forte e poderoso», afirmou, insistindo na necessidade de um financiamento fiável a longo prazo.
«Sem uma compreensão clara de que a Ucrânia se tornará membro da UE, não podemos falar de garantias de segurança plenas», acrescentou.
Washington continua necessário
Apesar das tensões crescentes com os Estados Unidos, Zhovkva admitiu que as garantias europeias não conseguem funcionar isoladamente.
«Não podem existir sem o apoio dos Estados Unidos da América», disse.
Com Washington a procurar relançar esforços diplomáticos para pôr fim à guerra, o responsável ucraniano reafirmou a disponibilidade de Kiev para negociar, mas insistiu que os parceiros europeus têm de estar envolvidos em todas as fases, incluindo eventuais conversações entre líderes.
«A Ucrânia está pronta para negociações agora», afirmou Zhovkva.
«A Europa, no sentido lato da palavra, tem de estar presente à mesa», concluiu, argumentando que a futura segurança da Ucrânia é inseparável da do resto do continente.
Perguntas frequentes
Que alternativas europeias está a procurar a Ucrânia?
A Ucrânia procura um sistema europeu de defesa aérea equivalente aos norte-americanos, com o programa FREYJA de mísseis antibalísticos já referido como exemplo, e uma alternativa europeia ao serviço de internet por satélite Starlink.
Quando devem estar prontas estas alternativas?
Ihor Zhovkva afirmou que existe um calendário claro e que o desenvolvimento será mais rápido do que cinco anos, mas recusou indicar uma data específica.
Porque quer a Ucrânia reduzir a dependência dos EUA?
As tensões entre Kiev e Washington aumentaram, com o presidente Donald Trump a pressionar pela suspensão de ataques ucranianos a infraestruturas petrolíferas russas e dúvidas crescentes sobre a continuidade do apoio militar americano.
