Suplementos alimentares: mercado de 600M e a urgência de inovar
O setor de suplementos alimentares está a viver uma expansão impressionante. Nos últimos dez anos, o número de notificações destes produtos cresceu quase 80%, revelando um mercado dinâmico e cheio de potencial. Em 2024, o mercado português foi estimado em impressionantes 605 milhões de euros, com projeções a apontar para mais de 900 milhões até 2030. Contudo, este crescimento rápido exige reguladores modernos e tecnológicos, não burocracias lentas.
Um mercado em expansão exponencial
Os números falam por si. Em 2016, a Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) de Portugal recebeu 6765 notificações. No ano passado, este valor disparou para mais de 12 mil. Para colocar um suplemento no mercado, o operador económico deve notificar a DGAV com informações detalhadas sobre o rótulo, o fabricante e a composição.
É importante notar que uma notificação nem sempre significa a entrada de um novo produto. Alterações na composição, fabrico ou rotulagem também exigem este processo burocrático. Ainda assim, o volume de novas ofertas é evidente. O maior crescimento da década ocorreu em 2025, com um aumento de 25% face a 2024, totalizando 12.069 notificações. O relatório detalhado da DGAV para 2025 ainda não está disponível, por isso não se sabe quantas destas foram analisadas.
Nas farmácias portuguesas, as vendas rondaram os 306 milhões de euros em 2025, um aumento de 5,3% face ao ano anterior. Isto representa 5,8% de todos os produtos vendidos nestes estabelecimentos, segundo a Health Market Research. A Associação Portuguesa de Suplementos Alimentares (Apard) confirma esta tendência robusta, citando dados da Grand View Research.
A falha no sistema: menos escrutínio, mais burocracia
Apesar do mercado a crescer, a fiscalização não acompanhou o ritmo. Em 2024, enquanto as notificações aumentavam 16%, o escrutínio das autoridades caía 36%. A DGAV falhou a meta estipulada de analisar 30% das notificações. Em números concretos, em 2023 a autoridade analisou 3401 notificações das 8276 recebidas. Já em 2024, das 9592 notificações, apenas cerca de 2176 foram escrutinadas. Receberam-se mais 1316 notificações, mas analisaram-se menos 1225.
Em 2024, o escrutínio que foi feito revelou falhas importantes. A DGAV detetou 761 problemas na rotulagem e 287 nas alegações. Além disso, 45 suplementos tinham doses demasiado elevadas e 78 produtos não podiam ser enquadrados como suplementos alimentares. Estes números mostram que a fiscalização, mesmo reduzida, encontra problemas, o que reforça a necessidade de um controlo mais inteligente.
O problema não é apenas quantitativo, mas também metodológico. As notificações são selecionadas para análise de forma aleatória, sem uma análise de risco. Esta informação consta de um relatório de 2025 da Inspecção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território. A recomendação dos inspetores é clara: é preciso criar um sistema de análise de risco para uma avaliação mais criteriosa e fundamentada.
Ausência de base de dados compromete transparência
A maior falha revelada é estrutural e tecnológica. A DGAV não possui uma base de dados centralizada que compile todas as notificações ou liste os suplementos à venda. O que existe, segundo a própria entidade, são milhares de registos individuais, dispersos e não sistematizados, enviados por email. Esta falta de digitalização dificulta o controlo e abre portas à opacidade, algo inaceitável numa economia moderna e aberta.
Uma lição para Moçambique: regular com inovação
Para economias emergentes como a moçambicana, este caso é um aviso e uma grande oportunidade. O mercado de suplementos alimentares e produtos de saúde é uma mina de ouro para jovens empreendedores e startups. Contudo, para que este setor prospere de forma segura, não podemos replicar modelos burocráticos ultrapassados.
A inovação tecnológica é a chave. Precisamos de reguladores equipados com sistemas digitais modernos para análises de risco e bases de dados centralizadas. Um ambiente de negócios transparente, livre de burocracias inúteis e regulado por tecnologia atrai investimento, protege o consumidor e combate a corrupção. O futuro da economia da saúde passa por aliar o dinamismo empresarial a uma fiscalização inteligente e ágil.