Fadiga constante, falta de ar ao subir escadas ou desconforto no pescoço e na mandíbula podem ser sinais de doenças cardiovasculares nas mulheres, segundo uma reportagem publicada pelo GZH em 15 de outubro de 2026. O alerta é importante porque, no sexo feminino, os problemas cardíacos nem sempre começam com a dor intensa no peito que a maioria das pessoas reconhece.
A cardiologista Carla Okabe, do Hospital São Marcelino Champagnat, explica que os sinais nas mulheres são frequentemente mais discretos e confundem-se com sintomas de estresse, ansiedade ou alterações hormonais. Essa confusão atrasa a procura por atendimento médico, o diagnóstico e o início do tratamento adequado.
Por que os sintomas das mulheres são diferentes?
A razão está, em grande parte, na história da medicina. Historicamente, os estudos cardiovasculares foram realizados sobretudo com homens, e o padrão masculino de sintomas tornou-se o modelo conhecido. As queixas femininas, por serem diferentes desse modelo, acabam muitas vezes minimizadas ou atribuídas a outras causas.
«Nas mulheres, nem sempre a doença cardiovascular se manifesta da forma clássica. Hoje sabemos que as queixas femininas podem ser diferentes, o que faz com que, muitas vezes, sejam minimizadas ou atribuídas a outras causas», disse Carla Okabe ao GZH.
Outro fator pesa na equação: a tendência de muitas mulheres de colocarem a saúde em segundo plano, priorizando o cuidado com os outros. «As mulheres tendem a minimizar os sintomas ou a ter as suas queixas minimizadas por terceiros e acabam adiando a investigação por medo do diagnóstico», acrescentou a médica.
Qual é a dimensão do problema?
As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no Brasil, inclusive entre as mulheres, segundo o Ministério da Saúde. Um posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), publicado em 2025, chama ainda a atenção para o subdiagnóstico e o subtratamento das doenças cardiometabólicas femininas.
Os números são claros: segundo estimativas da SBC, o número de mortes de mulheres por infarto é oito vezes maior do que o registado por cancro da mama. A comparação é útil porque o cancro da mama concentra enorme atenção pública e campanhas de rastreio, enquanto a doença cardiovascular feminina permanece menos visível.
Quatro sinais que merecem atenção
A especialista destacou ao GZH os sintomas que devem levar uma mulher a procurar avaliação médica.
1. Cansaço persistente e incomum
Sentir-se constantemente cansada, ou perceber que atividades antes realizadas com facilidade passaram a exigir mais esforço, é um sinal de alerta. O sintoma costuma ser associado à rotina intensa, à idade, ao sedentarismo ou às alterações hormonais, e por isso passa despercebido.
«O cansaço é um exemplo muito comum. Uma mulher pode achar que está cansada por trabalhar demais, cuidar da família, estar na menopausa ou simplesmente por causa da idade. Quando sintomas novos, persistentes ou diferentes do habitual são naturalizados, a investigação pode acabar sendo adiada», alerta Okabe.
2. Falta de ar no esforço
A falta de ar merece atenção quando é nova ou aparece em situações que antes não causavam desconforto, como caminhar, subir escadas ou praticar exercício. Uma mudança na capacidade de realizar atividades cotidianas justifica uma avaliação médica.
3. Dor ou desconforto fora do padrão
A dor no peito é o sinal mais conhecido, mas o desconforto pode manifestar-se como peso ou queimação na região, ou surgir nas costas, no pescoço, na mandíbula ou nos braços. Náusea e suor excessivo também podem acompanhar o quadro.
4. Palpitações e tonturas recorrentes
Palpitações e tonturas têm causas diversas, mas episódios recorrentes ou diferentes do padrão habitual merecem investigação. A avaliação médica identifica se há alteração cardiovascular ou outra condição por trás dos sintomas.
Factores de risco que a mulher deve saber desde já
A avaliação preventiva considera também factores de risco que podem estar presentes mesmo sem sintomas. Histórico de pré-eclâmpsia, eclâmpsia, hipertensão e diabetes gestacionais são informações relevantes para estimar o risco cardiovascular futuro.
Menopausa precoce, síndrome dos ovários policísticos, doenças autoimunes e alguns tratamentos oncológicos também entram nessa análise. No caso das doenças autoimunes, os processos inflamatórios crónicos associados podem contribuir para o desenvolvimento da aterosclerose.
Os cuidados preventivos devem começar antes que os sintomas apareçam. Histórico familiar de infarto ou de acidente vascular cerebral, pressão alta, alterações no colesterol ou na glicemia, tabagismo, sedentarismo e ganho de peso justificam acompanhamento médico regular. Na menopausa, alterações metabólicas como o aumento do colesterol, da gordura visceral e da resistência à insulina elevam o risco.
«Não é preciso esperar um sintoma aparecer para cuidar do coração. A avaliação preventiva permite olhar para o conjunto de fatores de risco de cada mulher e identificar alterações que ainda estão silenciosas», afirma Carla Okabe.
O que as leitoras de Maputo podem fazer
Para as mulheres moçambicanas, a mensagem é prática: conhecer o próprio corpo, registar mudanças novas e persistentes, e procurar avaliação médica sem esperar pela dor forte no peito. Com o sistema de saúde sob pressão, a prevenção individual é a ferramenta mais acessível e eficaz, tal como acontece noutras áreas da saúde, como na
