A peça O Começo do Fim, encenada por Isabel Fillardis e Well Aguiar, cumpre temporada em São Paulo, no Teatro Itália, depois de circular por cidades como Belém, Manaus, Recife e Brasília, segundo o jornal Folha de S.Paulo. A montagem, com direção de Rubens Camelo e supervisão de Amir Haddad, estreou no circuito teatral brasileiro em 2026 e aborda o que resta de uma relação amorosa quando ela chega ao fim.
Escrita por Denise Crispun, a dramaturgia foge da comédia de costumes ligeira e do melodrama raso. O espetáculo apresenta um olhar direto, amparado por um humor agridoce, sobre a convivência que acabou, mas cujas marcas afetivas continuam ativas: piadas que só o outro entende, queixas engolidas e a responsabilidade de educar um filho.
Personagens sem nomes para espelhar o público
Os protagonistas sequer têm nomes no texto. São identificados apenas como Ele e Ela. A escolha transforma os dilemas em espelho imediato para a plateia.
“Foi uma escolha pensada para que qualquer pessoa na plateia possa se projetar na história. Se dermos um nome específico, criamos um distanciamento; sem nome, o público veste a pele dos personagens”, afirmou Isabel Fillardis.
Well Aguiar aproxima essa dinâmica do Teatro do Absurdo. “A dramaturgia da Denise flerta bastante com referências de Harold Pinter, Bertolt Brecht. Há esse jogo humano em que um desmente o outro, repete falas com naturalidade e inverte papéis sem aviso prévio. A falta de nomes sublinha essa universalidade das contradições humanas”, disse o ator.
Quem é Pedro e qual o seu papel na história?
No centro do atrito cotidiano está Pedro, o filho único do casal, que nunca aparece fisicamente em cena. A presença da criança se manifesta por meio de cartas e de um áudio gravado pelo ator mirim Antônio Caramelo.
“Precisávamos de um ator que trouxesse peso e verdade para a leitura das cartas, mesmo sendo apenas em áudio. A presença dele amarra a narrativa sem precisar materializar o personagem fisicamente no palco, deixando que o público construa essa figura na imaginação”, explicou o diretor Rubens Camelo.
Pedro funciona como o canalizador das pendências do casal. Nas falas dos pais, a criança oscila entre a fragilidade diante do divórcio e o papel involuntário de instrumento nas disputas dos adultos.
Como o racismo estrutural entrou na montagem
A dramaturgia ganhou densidade quando a equipe decidiu incorporar a vivência de um casal interracial, algo ausente no texto original. Well Aguiar contou que sentia que a peça precisava de uma faísca a mais para não virar apenas mais uma comédia romântica já vista dezenas de vezes.
“Quando pensamos em trazer a vivência de um casal interracial, a história ganhou corpo e propósito”, disse Aguiar. A partir dessa decisão, o elenco buscou referências no letramento racial com obras da filósofa Bárbara Carine, e o processo revelou como o racismo estrutural se infiltra nos descompassos do casamento.
“A Denise Crispun foi extremamente generosa ao acolher nossa proposta. Não queríamos uma comédia leve que terminasse em pizza, nem um drama trágico e cortante. O Começo do Fim fala do amor sem romantização: sobre o que construímos, o que destruímos e, sobretudo, o que permanece quando o amor se transforma”, afirmou Fillardis.
Cenas que doem: o cabelo raspado e o silêncio da mãe
Uma das passagens mais duras da peça retrata a escolha do pai de manter o cabelo do menino raspado com a justificativa de evitar piolhos na escola. O texto sugere uma tentativa velada de atenuar os traços negros da criança.
“Não posso dizer que não é verdade. Não dá para cravar os motivos com precisão, porque ele ama demais esse filho, mas a estrutura racista opera exatamente aí: no campo sutil, em lugares tão íntimos e pessoais que fica difícil nomear”, disse Fillardis.
O silêncio da mãe também expõe o desgaste diário diante da falta de compreensão do parceiro. A personagem omite dele o fato de ser constantemente confundida com a babá do próprio filho por ter a pele mais escura que a da criança.
“O racismo estrutural opera na ignorância e na maldade; ele é insidioso, vem no olhar enviesado, no desdém. Casos explícitos são enquadrados pela Lei 7.716, mas e o racismo que opera nas sombras?”, questionou a atriz. “Trouxemos esse pilar porque também somos um casal interracial na vida real.”
Essa tensão atravessou até os próprios ensaios. Mãe de três meninos negros, Fillardis viu o palco reproduzir situações vividas em casa. “Na cena da terapia, por exemplo, o texto refletia de forma quase idêntica o que eu estava vivendo com meu filho mais novo, de 12 anos. Chegamos a interromper um ensaio por duas horas porque o espelhamento da realidade com o palco foi dilacerante”, relatou.
Narração fragmentada e figurino como elemento narrativo
A peça não segue ordem cronológica: salta entre começos, fins e reconciliações breves. “Já veio do texto original. É uma brincadeira direta com o título: a história é contada de forma fragmentada, salteada. E o figurino atua como elemento narrativo fundamental nesse vai e vem no tempo”, explicou Rubens Camelo.
Os trajes foram criados em parceria com a designer e artista indígena W'e'ena Tikuna, com tecidos orgânicos e sementes de tururi em peças modulares que se transformam ao longo das cenas. A cenografia de Janaína Wendling dialoga com referências africanas, e a trilha sonora de Muato marca os estados de espírito de cada diálogo.
A bênção de Amir Haddad e a busca pelo simples
A encenação encontrou seu tom nos ensaios no espaço do grupo Tá Na Rua, no Rio de Janeiro, com a escuta de Amir Haddad, um dos nomes mais respeitados do teatro de rua brasileiro.
“Ele nos deu a bênção para a montagem. Fez pouquíssimas intervenções e assistiu ao espetáculo quase todo em silêncio. No final, falou sobre a busca pelo simples. Como dizia Clarice Lispector, dá muito trabalho alcançar o simples, e o Amir ressaltou justamente o quanto essa simplicidade é difícil e preciosa na cena”, contou Fillardis.
Sem vilões ou lições de moral, O Começo do Fim recusa respostas fáceis sobre términos e recomeços. “Esse é um dos maiores propósitos da peça: fazer com que qualquer pessoa na plateia se reconheça em algum momento, seja nos conflitos universais do amor, seja nas especificidades da relação interracial”, sintetizou a atriz.
O espetáculo interessa pela franqueza da reconstrução: encarar o que desmoronou e descobrir o que ainda pode ser feito com o que restou. A temporada em São Paulo está em cartaz no Teatro Itália.
Perguntas frequentes
Onde assistir a O Começo do Fim?
A peça está em temporada no Teatro Itália, em São Paulo, após passar por Belém, Manaus, Recife e Brasília.
Quem são os atores principais da montagem?
Isabel Fillardis e Well Aguiar interpretam Ela e Ele, com direção de Rubens Camelo e supervisão de Amir Haddad.
Qual é o tema central da peça?
A obra aborda o fim de uma relação amorosa, a coparentalidade e a vivência de um casal interracial, incluindo as marcas do racismo estrutural no dia a dia.



