Jovens e Suporte Básico de Vida: a educação que salva vidas
Dois estudos da investigadora e profissional de saúde Mónica Azevedo foram selecionados para o European Emergency Medicine Congress (EUSEM) 2026, em Paris. As pesquisas defendem a introdução obrigatória do Suporte Básico de Vida (SBV) nas escolas e alertam para o impacto do burnout na segurança dos doentes, propondo mudanças estruturais na educação e nos cuidados de saúde. Estes dados europeus oferecem uma visão clara para países como Moçambique, onde a inovação na educação cívica e a valorização dos profissionais de saúde são prioridades.
Como integrar o Suporte Básico de Vida no ensino escolar?
A ideia para o estudo surgiu de uma constatação simples: a sobrevivência em paragens cardiorrespiratórias depende da intervenção precoce de testemunhas. Apesar das recomendações europeias para o SBV nas escolas, faltava informação sobre os conhecimentos dos estudantes portugueses. Mónica Azevedo realizou um estudo observacional com 174 estudantes dos 12 aos 18 anos, avaliando o reconhecimento de emergências, o uso do Desfibrilhador Automático Externo (DAE) e a confiança para atuar.
Enquanto profissional de emergência, a autora refere que é difícil aceitar que uma pessoa perca a vida por falta de conhecimentos básicos, especialmente quando alguém próximo poderia fazer a diferença.
Apenas 3% dos jovens sabem usar um desfibrilhador
Os resultados revelaram lacunas significativas na formação dos jovens. Apenas cerca de 20% dos estudantes identificaram corretamente como iniciar manobras de SBV. Menos de 3% referiram saber utilizar um DAE, um equipamento determinante para salvar vidas.
Além disso, verificou-se uma baixa confiança para atuar. Existe uma diferença importante entre a vontade de ajudar e a preparação efetiva para agir. Muitos jovens relataram receio de prestar socorro e descreveram experiências traumáticas por não saberem o que fazer.
Costumo dizer que aprendemos matemática, história e geografia porque são importantes para a vida. Mas saber reconhecer uma paragem cardiorrespiratória, pedir ajuda e iniciar manobras de reanimação pode literalmente salvar uma vida.
A investigadora defende a integração obrigatória do SBV no currículo escolar. A evidência internacional mostra que as crianças aprendem e retêm estas competências. Países como a Noruega, a Dinamarca e a Suécia são referências. Na Noruega, o ensino de primeiros socorros faz parte do currículo desde os anos 1960, e cerca de 90% da população já recebeu formação em reanimação. Na Dinamarca, as taxas de reanimação por testemunhas passaram de 20% para mais de 75% após a integração do SBV nas escolas e na obtenção da carta de condução.
O burnout nos serviços de emergência afeta a segurança do doente?
O segundo estudo apresentado no EUSEM 2026 foca-se na relação entre o burnout e a segurança do doente. Mónica Azevedo explica que o desgaste não é apenas um problema de bem-estar, pois influencia a tomada de decisão, a comunicação e o trabalho em equipa.
Os resultados demonstraram níveis moderados a elevados de burnout em 68% dos profissionais de emergência pré-hospitalar participantes. Cerca de 64% reportaram um impacto negativo na tomada de decisão clínica, e 72% referiram um aumento da perceção do risco de erro.
Em contextos marcados por escassez de recursos humanos e crescente pressão dos serviços, a autora sublinha que o burnout deve ser encarado como um problema organizacional e não apenas individual.
Cuidar dos profissionais não é apenas uma questão de valorização humana, é também uma estratégia fundamental para garantir cuidados mais seguros e de melhor qualidade.
Como reduzir o desgaste dos profissionais de saúde?
A profissional de saúde alerta que a normalização da exaustão é um risco grave. O burnout não é uma demonstração de fragilidade, mas o reflexo de profissionais dedicados a trabalhar em condições exigentes.
As intervenções mais eficazes combinam estratégias individuais e organizacionais. A autora destaca a promoção de ambientes psicologicamente seguros, o apoio à liderança, a melhoria da comunicação e a monitorização contínua dos fatores de risco. Ouvir os profissionais e envolvê-los nas soluções é fundamental.
O futuro da formação em emergência exige uma mudança de paradigma. É preciso continuar a formar profissionais tecnicamente competentes, mas também preparados para lidar com os fatores humanos que influenciam a qualidade e a segurança dos cuidados.
Por que razão o Suporte Básico de Vida deve ser obrigatório nas escolas?
Porque introduzir o SBV no currículo escolar permite aumentar a literacia em emergência, melhora a resposta da comunidade e pode salvar vidas. Saber reconhecer uma emergência e agir deve ser encarado como uma competência básica de cidadania, acessível a todos.
De que forma o burnout compromete a segurança do doente?
O burnout reduz a capacidade de concentração, aumenta a fadiga mental e compromete a avaliação de situações complexas. Em emergências pré-hospitalares, onde as decisões são tomadas em segundos, o desgaste extremo pode aumentar a probabilidade de erros e afetar a qualidade dos cuidados prestados aos doentes.