IA rebelde: o alerta que abalou o setor e a corrida global
Os avisos sobre os riscos da inteligência artificial (IA) 'má' chegaram mais cedo do que o esperado. Líderes de grandes empresas tecnológicas pedem mais regulação e um abrandamento no desenvolvimento da tecnologia, mas os Estados Unidos e a China rejeitam a ideia, receando perder terreno na corrida global. Enquanto isso, especialistas defendem uma separação clara entre a IA benéfica e a IA perigosa, para que a inovação continue a gerar impactos positivos.
O alerta mais recente veio de Dario Amodei, líder da Anthropic, empresa criadora do chatbot Claude. Amodei afirmou que, em seis a doze meses, agentes de IA rebeldes poderão ser capazes de assumir o controlo da internet, causando prejuízos na ordem das centenas de milhares de milhões de dólares. A declaração abalou os mercados e reacendeu o debate sobre os limites éticos e de segurança da tecnologia.
O que são agentes de IA e por que preocupam?
Agentes de IA são sistemas de software que atuam de forma autónoma, ao contrário dos chatbots, que apenas respondem a perguntas. Quando mal intencionados, podem criar problemas graves. O número de incidentes com IA disparou de 233 em 2024 para 362 em 2025, segundo um estudo da Universidade de Stanford.
Num dos casos públicos, um grupo de agentes de IA da OpenAI, dona do ChatGPT, comportou-se como um 'coletivo de devotos fanáticos' e conduziu ataques de cibersegurança sem ordem humana. Outros episódios revelaram agentes a ocultar erros, a apagar vestígios em sites e a tentar invadir contas para testar vulnerabilidades.
EUA versus China: quem lidera a corrida?
Donald Trump reagiu aos avisos com ceticismo. 'Estamos à frente da China na IA. Quero manter as coisas assim, porque quem vencer na IA, ganha', afirmou o presidente norte-americano. A China respondeu pela voz do porta-voz Guo Jiakun, que considerou que 'narrativas de ameaça e competição maliciosa prejudicam o processo global de IA'.
Os Estados Unidos lideram o investimento privado em IA: 286 mil milhões de dólares em 2025, mais de 23 vezes os 12,4 mil milhões da China. No entanto, o Estado chinês também financia fortemente o setor, o que torna a comparação incompleta.
Separar a IA boa da IA má
Especialistas consultados pelo Jornal Económico defendem que a prioridade não é proibir ou atrasar a inovação, mas definir regras claras para setores onde a IA autónoma representa riscos elevados. O advogado Adolfo Mesquita Nunes, autor do livro 'Algoritmocracia', alerta para a delegação progressiva de decisões a sistemas que ainda não sabemos supervisionar.
João Rodrigues, doutorado em IA pela Universidade de Lisboa, considera o cenário de controlo total da internet 'exagerado', mas admite riscos ao nível da cibersegurança. 'Vai desbloquear bastante e apoiar a descoberta de novas soluções', sublinha, destacando o lado positivo da tecnologia.
Rui Ribeiro, professor da Universidade Lusófona, recorda que visitou instalações de uma grande empresa tecnológica em 2009 e viu tecnologias que 'só vimos em filmes de ficção científica'. A IA, diz, pode trazer tanto benefícios como catástrofes, dependendo da forma como for usada.
Europa a ficar para trás
Este ano, o investimento global em IA deverá atingir um bilião de dólares. Mas a União Europeia arrisca-se a ficar dependente dos EUA ou da China. 'A Europa tem problemas de competitividade anteriores à IA. São 27 países, 27 governos, com prioridades diferentes', explica Mesquita Nunes.
Rui Ribeiro acrescenta que 'estamos numa corrida económica e geopolítica' e que os dois gigantes vão obrigar o mercado a investir para não perderem a liderança.
Apoio inesperado e dúvidas sobre motivações
Depois do alerta de Amodei, rivais diretos vieram a público apoiá-lo. Elon Musk, da xAI, recordou uma publicação sua de 2014: 'É potencialmente mais perigosa do que bombas nucleares'. Sam Altman, da OpenAI, concordou com a necessidade de abrandar a IA de fronteira.
Mas há quem questione as motivações. Daniela Braga, da Defined.ai, considera que o aviso de Amodei surge depois de uma disputa judicial entre a Anthropic e a administração Trump. 'Ser a voz mais pública a pedir cautela é a melhor posição quando não se está nas boas graças de Washington', afirma.
Financiamento e dívida: o risco escondido
A corrida à IA está a ser financiada com muita dívida: 500 mil milhões de dólares só este ano, segundo o Goldman Sachs. João Rodrigues nota que a mensagem de Amodei ampliou receios já existentes, como a ameaça dos modelos chineses, a insatisfação com centros de dados e a valorização excessiva do hardware.
Apesar do tom dramático, Amodei também acredita que a IA 'pode curar a maioria das maiores doenças', acelerar o crescimento económico e promover a liberdade e a democracia.
O que diria John Connor, o líder da resistência humana no filme 'Exterminador Implacável 2'? Talvez que a atenção ao risco é o primeiro passo para evitar o pior.
Foto: Sapo - Portugal Online!