Europa precisa reformar regulação de fundos para impulsionar investimento em startups
A União Europeia enfrenta um desafio crucial no cenário global de inovação: como transformar sua liderança regulatória em inteligência artificial numa vantagem competitiva real para atrair investimento privado às suas startups emergentes.
Apesar de ter estabelecido marcos regulatórios pioneiros com o AI Act em 2024, a Europa continua significativamente atrás dos Estados Unidos em termos de investimento e desenvolvimento de infraestrutura tecnológica. Esta realidade exige uma abordagem inovadora que combine regulação inteligente com incentivos ao capital privado.
Panorama atual das startups europeias
Segundo dados da Dealflow.eu, plataforma apoiada pela Comissão Europeia, existem cerca de 67 mil startups na Europa, das quais 12% trabalham com inteligência artificial. No entanto, apenas 6% enquadram-se nas 11 categorias prioritárias definidas pela Comissão Europeia, representando aproximadamente 4.100 startups com valor total de 161 biliões de euros.
Thijs Povel, cofundador e CEO da Dealflow.eu, reconhece o crescimento mas alerta: "Embora seja um número de que estamos orgulhosos, se compararmos com os Estados Unidos não estamos assim tão altos a nível de investimento".
Vantagem regulatória europeia
Contrariando críticas sobre burocracia excessiva, a Europa demonstra liderança regulatória clara. Enquanto os Estados Unidos lidam com cerca de 260 projetos de lei relacionados com IA em diferentes estados, a Europa já possui um marco regulatório unificado.
"Não se pode gozar com a Europa desta vez", defende Povel. "Se lerem o AI Act, percebem que as startups estão excluídas da burocracia". Esta abordagem equilibrada posiciona a Europa num "bom caminho" para se tornar no "continente da IA".
O desafio do investimento privado
A lacuna de investimento revela-se particularmente problemática quando consideramos que "as fundações da IA vieram do DeepMind, uma empresa londrina posteriormente adquirida pela Google". Apesar de ter melhores universidades e mais investigadores, a Europa não consegue competir nos investimentos.
A diferença estrutural é clara: nos Estados Unidos, múltiplos fundos investem ativamente em capital de risco, enquanto na Europa estes fundos mostram-se mais conservadores.
Proposta de reforma dos fundos de pensão
A solução proposta passa pela reforma da regulamentação dos fundos de pensão europeus. "Temos fundos de pensão com triliões de euros que estão a investir nas ações, fundos e títulos norte-americanos", observa Povel.
A Europa precisa de 800 biliões de euros no setor da inovação. "Eu acho que deve vir dos fundos de pensão e de seguro", sugere o especialista, ecoando recomendações do relatório Draghi de 2024.
Infraestrutura e competitividade global
Os números revelam o desafio infraestrutural: a Europa detém apenas 16% dos data centers mundiais e 4,8% da computação de IA, comparado aos 69,1% dos Estados Unidos.
Para responder a esta lacuna, a estratégia europeia prevê investimento de 20 mil milhões de euros em "gigafábricas de IA", visando proporcionar às startups europeias acesso para treinar modelos e desenvolver soluções localmente.
Perspetivas para Moçambique
Esta discussão europeia oferece lições valiosas para mercados emergentes como Moçambique. A combinação de regulação inteligente com incentivos ao investimento privado pode acelerar o desenvolvimento do ecossistema de inovação nacional.
A experiência europeia demonstra que liderança regulatória, embora importante, deve ser complementada por reformas estruturais que facilitem o fluxo de capital privado para startups e projetos inovadores.