Empresas fogem dos bancos: 60% querem stablecoins fora do sistema tradicional
Um estudo da consultoria multinacional Capgemini revelou que 60% das empresas estão dispostas a contratar serviços de stablecoins de empresas que não são bancos. A insatisfação com os serviços bancários tradicionais, especialmente em pagamentos internacionais, está a impulsionar esta mudança.
De acordo com o World Payments Report 2027, o grande tema do setor de meios de pagamento atualmente é a aceleração do dinheiro inteligente. Essa tendência tem-se traduzido numa adoção cada vez mais rápida de stablecoins, depósitos tokenizados e moedas digitais de bancos centrais (CBDCs). Segundo a Capgemini, 21% dos bancos estão atualmente a escalar pelo menos um instrumento de dinheiro inteligente.
Porque é que as empresas estão a abandonar os bancos tradicionais?
As instituições financeiras tradicionais parecem estar a ficar para trás. Embora 60% dos bancos tenham priorizado a inovação em pagamentos no segmento empresarial (B2B) nos últimos três anos, apenas 32% das empresas clientes dessas instituições se disseram satisfeitas com os seus parceiros bancários. Com isso, grande parte dessas companhias está aberta a buscar soluções fora do sistema bancário tradicional.
Em entrevista à EXAME, Daniela Dutra, líder de soluções para banking da Capgemini Brasil, afirmou que apesar dos bancos terem investido muito em pagamentos instantâneos, isso ainda não se materializou em valor para os seus clientes corporativos.
As principais queixas são previsibilidade no momento da liquidação, status de pagamento e condições de caixa, e a preocupação com fraude e risco que pode acompanhar esse tipo de operação, resume Dutra.
O que é o dinheiro inteligente e como pode ganhar escala?
O estudo afirma que a demanda corporativa e as novas oportunidades de receita só podem ser concretizadas se o dinheiro inteligente puder operar em escala. Todavia, como a liquidação é irreversível, o compliance precisa de se movimentar junto.
No relatório, a Capgemini aponta que uma empresa grande opera, em média, em 14 mercados, possui 11 relacionamentos bancários e realiza 34% do seu volume B2B em transações internacionais. O resultado disso é que 74% descrevem esses pagamentos transfronteiriços como lentos, custosos e imprevisíveis.
Em média, uma jornada de pagamento corporativo internacional leva 3,5 dias para ser completada.
Cansadas dessas ineficiências e com pouca paciência para esperar o desenvolvimento de soluções de dinheiro inteligente nos bancos, as empresas já estão a procurar soluções alternativas.
A adoção não é mais impulsionada apenas pelo desenvolvimento tecnológico ou pelo ímpeto regulatório; ela é cada vez mais impulsionada pela demanda dos clientes. À medida que as empresas se mostram mais abertas a provedores alternativos e a novas infraestruturas, cresce a pressão sobre os bancos para avançarem da fase de experimentação para a implementação, diz o relatório.
A Capgemini cita que a stablecoin USDC, da Circle, permite transações internacionais entre empresas liquidadas em trilhos programáveis com US$ 21,5 trilhões em transações no primeiro trimestre deste ano, o que representa um crescimento de 263%.
Stablecoins e outras soluções cripto serão 4% dos pagamentos no mundo
A consultoria projeta que stablecoins, depósitos tokenizados e CBDCs devem responder por 4% do volume de pagamentos global até 2030.
Se for pensar em pagamentos B2B, essa é a próxima fronteira mais clara. Imagina se cada país tiver o seu pagamento instantâneo. Uma tecnologia que rege todas é mais fácil de adaptar, argumenta Dutra.
Para os bancos, os depósitos tokenizados são a prioridade na hora de desenvolver soluções de dinheiro inteligente. O principal motivo é que eles se mantêm no balanço da instituição financeira e estão em conformidade com as regulações bancárias atuais, além de permitirem que os bancos levem os produtos que já oferecem com os depósitos de clientes para um ambiente programável.
Stablecoins, por sua vez, aparecem em segundo lugar e destacam-se pelo forte potencial de crescimento de eficiência nos fluxos transfronteiriços. Stablecoins são cada vez mais atraentes para a liquidação transfronteiriça, a interoperabilidade de redes e a geração de novas receitas em ecossistemas digitais, diz o estudo.
Já as CBDCs aparecem em terceiro, pois o principal valor está no controlo de riscos e otimização de liquidação interbancária, porém não trazem benefícios tão óbvios em termos de receita de clientes no curto prazo e a adoção depende de iniciativas dos bancos centrais.
Quanto dinheiro está preso no sistema bancário atual?
Conforme estimativas da Capgemini, aproximadamente US$ 4 trilhões estão presos globalmente em contas nostro e vostro (registos contabilísticos usados por bancos para gerir transações internacionais e câmbio em moeda estrangeira, representando a mesma conta sob perspetivas opostas). É um capital que gera pouco ou nenhum retorno e não pode ser utilizado para crédito e outras atividades.
Portanto, a aceleração do uso de formas de dinheiro programáveis poderia desbloquear esses valores, lidando com as ineficiências do sistema.