Doce tradição em risco: como Pelotas luta para salvar seu patrimônio imaterial
A cidade de Pelotas, no sul do Brasil, enfrenta um desafio doce, mas amargo: a tradição doceira local pode perder o título de Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Concedido em 2018 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o reconhecimento será reavaliado em 2028. Se as medidas de preservação não forem implementadas, o título pode ser retirado, ameaçando um saber fazer que é a alma da região.
De acordo com o Museu do Doce da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), os doces à base de frutas, como passa de pêssego, marmelada e figo em calda, estão desaparecendo gradualmente. A professora Nóris Leal, do curso de Museologia da UFPel, alerta: “Nós éramos conhecidos em todo o país pelos nossos doces de frutas. Tudo isso está desaparecendo. Se não fizermos algo agora, vamos perder esses conhecimentos. Quando se perde o saber fazer, perde-se aquilo que é essencial para a nossa identidade.”
Por que a tradição doceira de Pelotas está em risco?
O Iphan avalia que os doces coloniais à base de frutas são os mais vulneráveis. A redução do consumo e da produção, aliada à dificuldade de obter matéria-prima, está no centro do problema. “As doceiras têm enfrentado muita dificuldade para obter matéria-prima. Está se deixando de plantar e de manter pomares de árvores frutíferas, como o marmelo”, explica Nóris.
Onélia Mendes Leite, uma das doceiras mais tradicionais de Pelotas, com 75 anos, aprendeu o ofício com a mãe e mantém a tradição. “Não se vende mais como antigamente. O que falta é divulgação. Antes, havia muitas pessoas que faziam esses doces. Hoje, somos poucos. Eu sou uma das que seguem nessa luta”, afirma.
A passa de pêssego, considerada o doce mais antigo de Pelotas, é hoje produzida por apenas uma família: a agroindústria Doces Vô Jordão. Daniel Costa, administrador do negócio, lembra: “Aqui tinham umas 15 ou 20 famílias que faziam passa de pêssego. Os meus tios todos faziam.” A falta de incentivo e o afastamento das novas gerações da zona rural são apontados como causas do declínio.
O que está sendo feito para salvar a tradição?
Como resposta, o Museu do Doce lançou o projeto Rota do Marmeleiro, financiado com R$ 275 mil do Iphan. A iniciativa mapeia produtores artesanais de doces em cinco municípios da região, criando um mapa georreferenciado e um site para divulgar a história e os saberes tradicionais. O objetivo é fortalecer a cadeia produtiva do marmelo e de outras frutas, contribuindo para a revalidação do título em 2028.
Gilmar Pinheiro, chefe do Escritório Técnico da Fronteira Sul do Iphan, explica que a revalidação não busca verificar se a tradição permaneceu inalterada, mas como ela continua sendo praticada, transmitida e reconhecida. “A revalidação é um processo que reconhece o caráter dinâmico inerente ao patrimônio imaterial”, afirma.
FAQ: O que você precisa saber sobre a tradição doceira de Pelotas
Quando o título de Patrimônio Cultural Imaterial será reavaliado?
A reavaliação está prevista para 2028, quando o Iphan verificará se as medidas de salvaguarda foram implementadas.
Quais doces estão mais ameaçados?
Os doces coloniais à base de frutas, como passa de pêssego, marmelada e figo em calda, são os mais vulneráveis devido à redução do consumo e da produção.
O que é o projeto Rota do Marmeleiro?
É uma iniciativa do Museu do Doce que mapeia produtores artesanais e fortalece a cadeia produtiva do marmelo, financiada com R$ 275 mil do Iphan.
A luta para preservar essa tradição doceira é um exemplo de como a inovação e o empreendedorismo podem salvar patrimônios culturais. Em Moçambique, onde a doçaria tradicional também faz parte da identidade, a história de Pelotas serve como um alerta e uma inspiração para valorizar o que é nosso.