Bruna Maia transforma crise de saúde mental em romance inovador
A escritora e colunista Bruna Maia lança 'Na Beirada', um romance que nasceu de um episódio de hipomania e se tornou uma reflexão poderosa sobre saúde mental, feminismo e as fronteiras entre o normal e o patológico. Publicado pela editora Rocco, o livro já está disponível por R$ 69,90 (versão impressa, 288 páginas) e R$ 34,90 (e-book).
Como um surto criativo deu origem a um livro
Maia escreveu a primeira versão de 'Na Beirada' em apenas três dias, durante um episódio de hipomania. O manuscrito foi comprado pela Rocco, mas a editora condicionou a publicação a uma ampla reescrita. Nos dois anos seguintes, a autora pesquisou psiquiatria, institucionalização e relatos de pacientes antes de refazer totalmente o texto, mantendo os elementos essenciais da história.
'Em 2022, achei que tinha escrito a coisa mais genial do mundo', afirma Maia. Ao reler o original, percebeu que o estado mental acelerado havia deixado marcas na linguagem. Ela aproveitou parte desse material na nova versão, mas refez a estrutura, alternou primeira e terceira pessoas e reescreveu o livro inteiro. 'Escreva bêbado, edite sóbrio', brinca, adaptando a famosa frase ao seu estado mental.
Cassandra: uma programadora que desafia o sistema
A protagonista do romance é Cassandra, uma programadora reclusa e emocionalmente instável que decide prestar concurso para investigadora da Polícia Civil. O nome não é coincidência: Maia, fascinada por mitologia grega, evoca a princesa de Troia condenada a prever o futuro sem jamais ser ouvida.
'Ela dialoga com o feminino de hoje. As mulheres são desacreditadas quando denunciam assédio, quando denunciam abuso ou quando chegam ao médico e ele diz que elas não têm nada', explica a escritora.
Saúde mental, crítica social e o papel do patriarcado
Diagnosticada com transtorno bipolar tipo 2, Maia diz estar estável há anos e que o tratamento psiquiátrico mudou sua vida. No entanto, o romance é crítico à psiquiatria e à medicalização. Para a pesquisa, ela leu livros, ouviu relatos de pacientes e buscou reclamações sobre clínicas psiquiátricas na internet.
'Eu sou fascinada por esse terreno: o que é um comportamento humano normal, o que é um comportamento que apenas diverge da norma e o que de fato é um transtorno mental?', questiona. 'Na Beirada' sugere que a loucura de Cassandra pode ser também uma reação ao patriarcado. Maia relaciona o sofrimento psíquico às estruturas sociais e lembra que comportamentos femininos que contrariavam o esperado foram historicamente tratados como doença.
Música, sexo e uma homenagem a São Paulo
O romance contém cenas de sexo, mas Maia afirma que elas funcionam como espaços de disputa de poder entre os personagens. 'Embora tenha uma história de amor, de apaixonamento e de tesão muito forte, esse não é o foco.'
A música organiza lembranças e relações. Roberto Carlos ocupa o centro dessa construção como parte da memória afetiva brasileira, mas o livro cita ainda a tropicália, T. Rex e Tchaikovsky. A cidade onde a trama se passa não é nomeada, mas reproduz elementos de São Paulo. 'Eu meio que considero esse livro uma homenagem minha para São Paulo', diz a autora, que hoje mora no Rio, mas passou 14 anos na capital paulista.