Cena Ballroom: Como a Cultura Cria Emprego e Identidade
A cultura ballroom de Porto Alegre, no Brasil, mostra como uma comunidade marginalizada pode construir um ecossistema próprio, gerando renda, acolhimento e oportunidades. Nascida como protesto, a cena hoje é um modelo de empreendedorismo cultural e inovação social que inspira o mundo.
O que é a cultura ballroom e como ela nasceu?
Há cerca de sete anos, os espelhos que revestem uma sala da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Esefid/UFRGS) refletiram o nascimento de uma cultura que incendeia Porto Alegre. Foi ali, em 12 de outubro de 2019, que cerca de 200 pessoas participaram do evento inaugural da cena ballroom da capital gaúcha.
Desde então, com desfiles, performances e dança, o movimento vem construindo um espaço em que a comunidade LGBT+ encontra uma rede de apoio e amizade, e é celebrada como protagonista de sua trajetória. O princípio de tudo foi nos Estados Unidos, no final dos anos 1960. Mais do que uma contracultura, a ballroom nasce como uma ação de reivindicação social, um protesto da nova-iorquina Crystal LaBeija, travesti negra que se revoltou com o racismo das competições de beleza promovidas pela comunidade LGBT+ da época.
Para mim, é um estilo de vida. O dia de ball é para celebrar o meu corpo trans e as suas potencialidades, esse corpo que, diferentemente do que ocorre em outros espaços, é cultuado, é querido dentro da ballroom.
Essas são palavras de Bru Likes Borba, uma das pioneiras no cenário local, conhecida como Mother Sugar Baby Harpya.
Como as houses funcionam como ecossistemas de acolhimento?
Foi Crystal LaBeija quem criou a primeira casa, a House of LaBeija. Na época, o uso do termo house era literal: as pessoas LGBT+, frequentemente expulsas de suas famílias biológicas por serem quem são, eram tiradas das ruas e levadas para morar com a mãe ou o pai de uma casa. Essa estrutura familiar alternativa é o que sustenta a comunidade até hoje.
Muitas pessoas colocam as casas como coletivos, mas eu acho que é muito além. É uma família para além de um laço sanguíneo. Meus filhos vêm falar comigo coisas que não falam com as mães. E tenho filhos que não têm contato com as mães. As casas estão nesse local de ressignificação familiar.
Quem fala é Ávine Fernandes, mãe da Feroz Casa de Leopardos e uma das lideranças da capital gaúcha. Ela menciona também um papel educacional desses grupos. Por fatores históricos e sociais, que envolvem preconceito e marginalização, a comunidade LGBT+ é uma das afetadas pelo HIV. Em Porto Alegre, capital que há 10 anos lidera o ranking de mortalidade por aids, algumas casas exercem a função de conscientizar para a prevenção e o apoio a pessoas soropositivas.
É um mundo alternativo. Sabe quando você é criança e sonha com algo que parece não ser possível? Na ball, você vai ver que é, sim, possível. Só consegui entender a possibilidade de ser uma travesti sendo respeitada e exaltada por conta da ballroom.
Como funciona uma ball e o voguing?
O ápice da cultura é uma ball, o momento no qual os membros se reúnem para apresentar seus talentos. O evento é organizado em batalhas divididas por categorias, em que os participantes se arriscam a caminhar, como é chamada a apresentação. Posicionado em um lugar de destaque, o DJ começa a tocar seu som, e o público se reúne ao redor da pista. Com o microfone em mãos, o chanter, um mestre de cerimônias, agita quem está presente.
O ritual de toda ball envolve algumas etapas. Antes de efetivamente começarem as competições, a primeira parte, chamada de roll call, é dedicada a honrar figuras importantes da cena presentes no dia. Um sinal de respeito a quem chegou antes. E honrar ainda uma instituição fundamental dentro da cultura: as houses.
Nas batalhas de dança, o estilo que domina é o vogue, ou voguing. No mesmo Harlem onde Crystal LaBeija foi precursora, desenvolveu-se esse estilo que simboliza o que a cultura é até hoje. Por meio de movimentos angulares de pernas e braços, a dança imita poses de modelos da famosa revista Vogue.
Assim como a gente tem o breaking, que é uma dança da cultura hip-hop, o voguing é a dança da comunidade ballroom.
Essa explicação é de Domaréon da Silva Policarpo, conhecido na cena como Banjee Boy Dom Harpya, um dos organizadores da primeira ball de Porto Alegre, em 2019.
A modalidade rapidamente se alastrou entre a população negra e latina de Nova York. A dança virou categoria de destaque nas balls e referência na cultura pop. Aonde chega, ganha sotaques locais. Dentro do Brasil, diferentes ritmos musicais forjam novos passos e estilos. A over founder mother da Casa de Lanceira, Katrina Chagas, cita influências do funk carioca, brega, pagode baiano e até capoeira.
Como o espírito 'faça você mesmo' impulsionou a cena?
De início, a faísca que fez Porto Alegre incendiar foi o vogue. Pela internet ou em estúdios de dança, pioneiros da cena local passaram a se interessar pela dança e estudá-la. Na capital, bailarinos ensinavam o estilo e ensaios abertos eram organizados desde 2015. Locais como o Parque Farroupilha e a Orla do Guaíba foram alguns dos cenários desses encontros. O uso do espaço público ocorria, principalmente, pela necessidade. Sem lugares apropriados ou recursos para bancar um salão, era preciso ocupar a cidade.
Dom, da Harpya, conta que era possível reunir a comunidade ballroom do Brasil em um grupo de WhatsApp. Havia cerca de 150 pessoas, e os eventos ocorriam normalmente em São Paulo. Ele fez parte da equipe que organizou aquela primeira ball em Porto Alegre.
Acredito que foi algo bem inconsciente na época. Eu não era uma pessoa assumidamente LGBT+, eu não tinha transicionado, mas o meu inconsciente já estava lá trabalhando para que hoje eu tivesse esse espaço seguro, que me permite ser quem eu realmente sou.
Além de Harpya, esse marco inicial apresentou outras duas houses: a Casa de Lanceira, formada por alunos de projetos sociais e moradores da Casa do Estudante da UFRGS, e a Casa de Kaliça, que, apesar de hoje extinta, teve uma história semelhante à das casas do início da ballroom. O coletivo foi formado em uma ocupação urbana composta por pessoas negras e LGBT+, que dividiam o mesmo espaço por necessidade financeira.
A gente estava morando junto, pensando em formas de sobrevivência mesmo, de como conseguir o rango pra gente, como gerar renda. Mas também esse lugar de acolhimento, de criação e intimidade.
Fayola Ferreira, que foi mother da House of Kaliça e hoje integra a Casa de Tarântula, descreve o espírito empreendedor que nasceu da necessidade.
Como a ballroom se transforma em oportunidade econômica?
Aos poucos, vieram novas houses, novos integrantes, e a cena local cresceu, acompanhando o movimento nacional. Se antes um grupo de WhatsApp era capaz de reunir toda a cena ballroom do país, hoje só Porto Alegre já supera esse número. Dom destaca que o Brasil todo, de 10 anos para cá, vê a ballroom crescer a ponto de ele não fazer ideia de quantas pessoas tem na comunidade.
Um símbolo dessa expansão é o fim de um coletivo fundamental para o desenvolvimento da cena, o POA Vogue Nights (PVN). O PVN nasceu no início de 2022, quando um grupo de amigos que ensaiava nas férias sentiu a necessidade de ver um espaço em que pudesse batalhar e viver, com mais frequência, a experiência das balls a que assistiam na internet. Viraram produtores na cena da Capital.
Aonde o POA Vogue Nights chegava para fazer algum evento, ele acabava levando a cultura ballroom e a conectava ao público desses lugares.
Gilian Vinicius, prince da House of Cabal e um dos fundadores do coletivo, aponta a importância desse trabalho de ponte. No último dia 24 de maio, o grupo organizou a Kiki Ball da Despedida, que lotou o bar Ocidente, no Bom Fim. André Borba, participante independente conhecido como Wistar 007, resume o sentimento:
Hoje, a gente acha que esse vácuo de balls não está mais lá. Cada pessoa do coletivo tem as suas casas, e eu acho que está todo mundo muito ativo. A gente sente que o PVN chegou ao fim de forma natural, e resolvemos celebrar esses quatro anos.
Os mesmos espelhos que refletiram o marco inicial da cena agora projetam o futuro de novos talentos. Na Sala Rítmica 1 da Esefid da UFRGS, Bru e a professora Aline Nogueira Haas coordenam o Vogue Instruction Program (VIP), que oferece aulas gratuitas de voguing para a comunidade. O projeto é vinculado ao doutorado em que Bru pesquisa a dança na UFRGS.
Gilian aponta uma conexão direta entre o início da cena e os futuros possíveis da cultura ballroom do Estado. Da falta de portas abertas e dinheiro para financiar suas ações, as pessoas que fizeram acontecer desenharam uma característica própria da cidade. A noção de faça você mesmo, das roupas às balls, está sempre presente.
Cada cena tem o seu processo de desenvolvimento. Mas talvez a nossa cena não tivesse se desenvolvido tanto se nós, que somos daqui, não tivéssemos tomado a frente na produção.
Para Gilian, o desejo coletivo é que a ballroom se expanda, mas sem que os significados do movimento sejam esvaziados. Essa é a chance de que ela se converta em oportunidades reais de emprego e renda às pessoas que fazem a cultura acontecer.
A gente conseguiu consolidar um ponto de chegada, mas porque essa solidificação apontou para uma perspectiva muito boa de continuar crescendo, de continuar atraindo novos públicos, e também de fazer com que os artistas da comunidade sejam mais vistos e reconhecidos.
Como a cultura ballroom pode inspirar Moçambique?
A experiência de Porto Alegre oferece lições valiosas para cidades como Maputo. O modelo ballroom demonstra como comunidades jovens podem criar ecossistemas sustentáveis a partir da cultura, transformando a exclusão em oportunidade econômica e social. O empreendedorismo cultural, a ocupação criativa de espaços públicos e a organização comunitária são ferramentas que podem ser replicadas em contextos moçambicanos, onde a juventude busca espaços de expressão e geração de renda.
Como participar da cultura ballroom sem pertencer a uma house?
Pode-se participar da ballroom sem pertencer a uma house?
Sim. Há quem participe das performances de forma independente. São os chamados 007, uma referência direta ao agente secreto James Bond. André Borba, conhecido como Wistar 007, explica que a grande maioria das pessoas começa como 007. Os iniciantes participam de balls e ensaios e podem ser acolhidos por uma dessas famílias.
Quantas houses existem em Porto Alegre?
Porto Alegre tem hoje nove houses: Atrevida, Audácia, Cabal, Feiticeira, Harpya, Juicy, Lanceira, Leopardos e Tarântula. Algumas foram criadas localmente e outras são representantes de outros Estados brasileiros.
Qual é a diferença entre os cargos dentro de uma house?
Dentro de uma casa, os cargos variam de acordo com a lealdade e as contribuições para a comunidade. O founder mother ou founder father é quem fundou o grupo e está à frente dele. Ávine Fernandes, por exemplo, é founder mother da Feroz Casa de Leopardos. Dom é over founder father da House of Harpya, a primeira criada no Rio Grande do Sul.