Um estudo da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) concluiu que os algoritmos das redes sociais captam sinais de tristeza dos usuários e respondem com recomendações cada vez mais nocivas, ampliando o risco de conteúdo sobre automutilação e suicídio. A análise, divulgada em outubro de 2026 e reportada pelo jornal Folha de S.Paulo, examinou mais de 8 mil vídeos do TikTok.
Os números são claros: 45% de todas as recomendações diárias de um usuário surgem a partir de pouquíssima interação. E o tempo até a exposição ao conteúdo prejudicial é curto. No décimo vídeo exibido, menos de 29% das contas analisadas ainda estavam livres desse tipo de material. Ao 40º vídeo da sessão, entre 98,5% e 100% das contas já tinham recebido pelo menos um vídeo com potencial de dano.
Como o algoritmo detecta a vulnerabilidade emocional
O mecanismo é simples e silencioso. A pessoa vive um momento difícil, como um término amoroso ou um conflito no trabalho, e abre a rede social. Encontra um vídeo aparentemente acolhedor, passa alguns minutos assistindo, e esse tempo de tela é o sinal mais forte para o sistema. A partir daí, as publicações similares se multiplicam na linha do tempo.
Segundo os pesquisadores, uma única sessão de visualizações sobre um problema emocional deixa rastros no perfil. O algoritmo continua recomendando vídeos sobre o tema mesmo quando o usuário passa a evitá-lo. O sistema também não distingue adequadamente quem procura ajuda de quem expressa desespero: conteúdos potencialmente nocivos seguem aparecendo ao lado dos materiais educativos.
Ruminação psicológica e falsa sensação de aprendizado
Um dos efeitos mais documentados pelos especialistas é a ruminação psicológica, ou seja, o hábito de pensar no problema mais do que o necessário.
“O algoritmo não regula a emoção do usuário, mas o momento emocional faz com que ele entenda os conteúdos que ele quer ver. A pessoa tem uma dor, encontra confirmação para ela e passa a ruminar. Pensa mais do que deveria no assunto”, explicou Renato Gallo, pesquisador do Programa Ambulatorial dos Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria da USP, em entrevista à Folha de S.Paulo.
O psicólogo Vagner Rocha acrescentou que esse ciclo gera uma falsa sensação de autoeducação. A pessoa acredita que está resolvendo o problema, mas permanece no momento de tristeza, o que por sua vez alimenta o algoritmo com mais dados.
Conteúdos nocivos mais frequentes
Os tipos de material mais recorrentes nas recomendações foram publicações de positividade tóxica e autodiagnóstico sem base científica, seguidos por desinformação sobre tratamentos e materiais explícitos sobre suicídio e automutilação.
“Esse tipo de conteúdo pode levar a diagnósticos equivocados, preocupações desnecessárias e gastos com tratamentos inadequados, além de afastar pessoas de intervenções necessárias”, disse Rodrigo Menezes Machado, psiquiatra e coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da USP.
Machado alertou ainda para o risco do efeito Werther, também chamado de efeito contágio, pelo qual a exposição a conteúdos sobre suicídio pode influenciar o comportamento de outros usuários por sugestão. Ele citou o caso da série 13 Reasons Why, da Netflix, que foi seguido de um aumento de tentativas de suicídio, especialmente entre pessoas vulneráveis.
Por que é tão difícil sair desse ciclo
Gallo descreveu o desenho das plataformas como feito para manter o usuário preso. “Para a rede social, não importa seu estado emocional; importa sua presença no ambiente o máximo de tempo possível”, afirmou.
A explicação está na dopamina. O sistema de recompensa cerebral marca como prazerosa a atividade de rolar o feed e passa a puxar a pessoa de volta àquele ambiente, criando dependência. As consequências incluem ansiedade, fadiga e uma sensação de escassez de energia ao fim do dia.
“O sistema de recompensa é muito primitivo, desenvolvido para sinalizar oportunidades de gratificação no ambiente. Estamos expondo esse sistema a um mundo para o qual não foi desenhado para estar, em que existe abundância de estímulos prazerosos”, afirmou Machado.
Como reduzir o impacto nas redes sociais
Os especialistas ouvidos pela Folha sugerem medidas práticas. Rocha recomendou manter uma postura crítica diante do conteúdo entregue e privilegiar atividades fora do ambiente virtual durante momentos de crise, como exercício físico, ainda que leve, e encontros com amigos. Movimentar o corpo, aliás, tem benefícios comprovados, como mostra este artigo sobre
